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Falar em austro-húngaro

Falar em austro-húngaro

Joám L. Facal

Em certa ocasiom, um amigo da família alcunhou de austro-húngaro esse estranho sotaque com que os prófugos do galego pretendem ocultar a sua origem. A saída, a ocorrência como diziam na família da minha nai para aludir qualquer agudeza improvisada (termo abonado no dicionário de dom Eládio Rodriguez) tem mais razom do que a primeira vista parece. O império austro-húngaro foi aquele ente político disparatado e serôdio, mixórdia de línguas mutuamente estranhas que, nom por acaso, deu á luz os sarcasmos de Karl Kraus, o Círculo de Viena e esse singular prontuário de filologia ascética que é o Tratado lógico filosófico de Wittgenstein. Todos eles aliados contra a língua apodrecida.

A prática do falar em austro húngaro é umha inocente técnica de ocultaçom condenada ao fracasso. O sotaque galego, a fonética, a entoaçom locucional, é umha marca identificativa quase indelével como podem comprovar a cotio os prófugos da pronúncia nativa sem mais que se aplicarem a escuitar as suas esmeradas alocuçons em rádio ou televisom. Pese aos esforços o sotaque de camuflagem segue ali.

Tecnicamente, o sotaque galego descansa mormente na nossa particular vocalizaçom1 — os sete sons do nosso sistema vocálico, as vogais longas e breves — e inevitavelmente na curva melódica2 das frases, especialmente no caso das interrogativas: -Usted es gallego, no? - Y usted como lo saa↑be↓?

Os esforços de camuflagem da fonética e da entoaçom própria em indumentária castelhana tenhem algo de exercício penoso embora contem com ilustres antecedentes: "Pouco depois, acercárom-se os que ali estavam e interpelárom a Pedro: Seguro que ti és também um deles, a tua fala descobre-te. Entom, ele começou a jurar e a maldizer: eu nom conheço esse homem". Mateu 26:73.

Contamos com destacados cultivadores da oratória austro-húngara entre nós a começar polo presidente Feijó de limpa procedência d´Os Peares e aplicado praticante da variedade viguesa, preferida também polo seu pertinaz adversário Abel Caballero. Entre os conselheiros do presidente, o peculiar sotaque concita amplo eco e imitaçom, como podemos comprovar. Um fenómeno habitual nas formaçons políticas onde a emulaçom do líder é signo certo de fidelidade e status. O particular sotaque do presidente dá muito nas vistas, como gostam de dizer os portugueses, ou mais bem nos ouvidos, para ser mais preciso. Temos de reconhecer contodo que a variedade austro hungárica exige um certo grau de aptitude e empenho para alcançar a mestria. Outro ilustre membro do mostruário político galego —monstruário se preferirem —, dom Francisco Vázquez, aplicado aspirante a umha cuidada dicçom de embaixador, nunca conseguiu superar o soberbo sotaque corunhês que o caracteriza e que goza de tantos admiradores.

Outra praticante avantajada do elusivo sotaque austro húngaro é a reputada cantadora Luz Casal, nada em Andavao, Boimorto, medalha Castelao por sinal. A artista é titular dum incolor sotaque indefinido que nom deixamos de admirar cada verao nas entrevistas que concede com ocasiom dos Festivales de la Luz de Boimorto, convocados pola cantora com encomiável intençom lúdica e filantrópica.

Como quer que seja, o sotaque austro-húngaro nom se pode safar desse ponto artificioso que gravita sobre os nascidos na periferia das estepes da Ibéria central quando pretende replicar a pronúncia centrípeta. As escusas esgrimidas ante quem insinue o artifício resultante variam desde a alegada influência maléfica de umha estadia de duraçom indeterminada em Madrid — a deste servidor foi de dez anos e saiu indemne — até um translado prematuro a umha cidade foránea qualquer, Oviedo, por pôr um exemplo.

Na verdade, a resistência ao agressivo vírus do falsete esganiçado nem sempre tem êxito; aí está o caso do presidente Aznar irremediavelmente infestado de vírus mariachi num rancho do Middle West sem culpa. Imaginem os efeitos numha complexom menos robusta que a do valoroso líder, exposta a foulas atlánticas e catarros intermitentes. Á vista estám os resultados.

Quem fala de sotaques fala de estilos, desculpáveis em artistas e personalidades expostas a abafante escrutínio público. Nom é difícil observar, por exemplo, a atitude impostada dos altos executivos e dirigentes de empresa nas suas comparecências nas páginas de informaçom económica: os braços cruzados sobre o peito, a olhada desafiante, como recomendam os assessores de imagem. A estudada obviedade da posse pretende sugerir seguridade e capacidade decisória com carimbo de escola de negócios. A imagem dos inúmeros conjuntos musicais juvenis propende porém mais bem á olhada displicente ou provocativa como marca de estética marginal ou malditismo romántico atenuado que os fãs adoram. A teatralidade, o artifício, a aparência, som servidumes de quem vive pendente da opiniom pública. A naturalidade no entanto nom é qualidade comum nem fácil de alcançar: a difícil singeleza é património de seletos.

Presumir de leituras, de títulos académicos, de infáncias singulares é, para umha olhada treinada, umha declaraçom transparente de insatisfaçom, de défice de autoestima inutilmente combatida com atitudes impostadas. O ego da teoria psicanalista nom deixa de ser essa segunda identidade defensiva que tentamos construir para confirmar a nossa exemplaridade e exibir depois para o inglês ver.

A autoestima dolorida e a emulaçom servil ao outro que revela o discurso austro-húngaro admite umha interpretaçom elementar: é um traço psicológico reativo da frustraçom histórica que padece o país pola demissom dos estamentos superiores e os seus fámulos intelectuais. Pola ausência de exemplaridade social em definitivo.

A dizer verdade, o sotaque austro húngaro nom deixa de ser o grau zero do desleigamento e a sua manifestaçom mais benigna. Vejam senom o caso de dona Gloria Lago, viguesa, filóloga, mestra, autora e política, se acreditamos no seu dilatado curriculum público, a animosa activista conseguiu superar com coragem este primeiro estadio da galego fobia para ingressar nas hostes invictas dos paladins do espanhol assediado, como é sabido, por arteiras ciladas de dialetos provincianos empenhados em deformar topónimos de-toda-la-vida e ressuscitar línguas mortas que nom acabam de morrer.

2 http://xn--revistadefilologiaespaola-uoc.revistas.csic.es/index.php/rfe/article/viewFile/751/871

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