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Pequena crónica de um encontro singular. Para Fernando Venâncio.

Pequena crónica de um encontro singular. Para Fernando Venâncio.

Joám Lopes Facal

A última semana de novembro de 2019 foi para nós, Ana e eu, umha experiência singular. A de acolher como hóspede de honra o professor Fernando Venâncio, como gosto de aludi-lo em reconhecimento ao seu magistério filológico. A de passar de vivermos quase todo o ano a sós a partilhar convivência com Fernando Venâncio vindo à Galiza apresentar o seu livro Assim nasceu uma língua/Assi naceu ũa lingua 1, que resume umha vida dedicada à docência e ao estudo do idioma português. A vinda à Galiza e a volta a Portugal correu a cargo do seu grande amigo Marco Neves e família, bem conhecido nos círculos de amigos do português da Galiza, terra que ele frequenta e aprecia como bem sabemos.

Durante umha semana, o ilustre filho da vila histórica de Mértola — que luz por sinal no seu escudo umha ufana cruz de Santiago, empunhado por destemido cavaleiro — residiu na capital da Galiza dedicado a apresentar o seu livro, com duplo título em galego e português para sublinhar talvez a tese principal que este defende: que o galego foi sem mais o idioma de Portugal até 1400.

A proximidade de Venâncio ao galego vem de longe. Basta lembrar os seus estimulantes trabalhos publicados na revista Grial como prova inequívoca do seu decidido galeguismo; de que outra maneira poderíamos qualificá-lo? Além da sua cercania ao galego e a sua problemática, outra característica singulariza a personalidade de Fernando Venâncio: a sua obstinada independência de critério. A desconformidade de Venâncio com o Acordo Ortográfico 90, que sacrifica a sólida imagem etimológica das palavras frente à mutável realizaçom fonética, é outra posiçom que persoalmente comparto apesar da unánime adesom do reintegracionismo ao Acordo, que respeito. Do meu ponto de vista, o Acordo é um particular armistício a um pleito luso-brasileiro, irrelevante a talvez prejudicial para a plena recuperaçom do galego.

Da marcada independência de critério do professor, sem temor à polémica, é boa mostra o seu aberto desafio à lenda dourada que sustenta o relato nacional português. O lançamento do livro em Portugal véu precedido de desinibidas declaraçons do autor, manifestamente dissonantes ao sensível ouvido patriótico português: O português é um fenómeno tardio, a história do português é, em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego. Ou, estoutra: Denominar português qualquer variedade linguística anterior a 1400 é resvalar num anacronismo, e, pelo menos, numa sofrível incongruência. Até essa data, Portugal utilizou a língua que herdara ao se fazer independente: o galego.

Também sobre o sentimento dos galegos ousa opinar Fernando Venâncio quando afirma que nos sentimos humilhados polo patente contraste entre o desleixo que padece a nossa língua própria e a sua esmerada defesa em Catalunha e no País Basco. Tal opiniom merece algumha pontualizaçom. Será bom lembrar que a língua galega tem uso mais extenso na Galiza que o catalám e o euskara nos seus respectivos territórios, sem esquecermos o significativo facto de o Parlamento galego usar desde o seu início o galego como língua exclusiva, em flagrante contraste com a esmagadora presença do castelhano no Parlamento basco e o biliguísmo sistemático praticado no Parlamento catalám como consequência da sua irredutível polarizaçom. É verdade que o galego sofre do desleixo e os maus tratos a que o submete o inveterado partido governante, mas, também é certo que situaçom é reversível e pode virar em prazo breve.

Galeguismo, independência de critério e defesa da sólida tradiçom da língua som posiçons partilhadas que fôrom alimentando um sentimento de mútuo apreço madurado através das coincidências de critério constatadas ao fio dos apaixonados debates que agitárom em tempos as páginas do PGL.

A solidez das referidas afinidades electivas pugna agora com a incómoda sensaçom de dissabor gerada pola crescente aversom de Fernando Venâncio ao movimento reintegracionista ao qual eu adiro, cruamente confirmada em Assim nasceu uma língua. É verdade que a provada resistência do reintegracionismo à hostilidade circundante lhe permitiu desenvolver um sólido sistema imunitário, vulnerável por acaso a opinions formuladas por um observador forâneo a quem se lhe supom certo grau de equanimidade.

Para honrar o matiz deve reconhecer-se que Fernando Venâncio concentra a sua repulsa no reintegracionismo radical, com que rotula a AGAL e sobretodo a AGLP, por ter caído na tentaçom de substituir o galego secular pola koiné portuguesa, prática maioritária hoje entre os cultores da variedade pós-reintegrada, docentes de galego-português na sua maioria. Quanto ao reintegracionismo moderado, com que rotula a AEG, é acusado, penso que com pouco motivo, do abandono do léxico tradicional a maos da RAG. Do meu ponto de vista, a posiçom defendida pola AEG consiste mais bem na defesa de um estatuto de soberania linguística do galego como variedade legítima, e mesmo fundacional, entre outras do sistema ibero-románico ocidental.

Contodo, o que tem concitado mais animadversom nas filas reintegracionistas depois da apariçom do Assim nom foi tanto a aberta impugnaçom das posiçons reintegracionistas como o significativo silêncio estendido sobre as posiçons isolacionistas cultivadas com meios económicos e esmero polas instituiçons gestoras do galego por delegaçom da Junta de Galiza. Impugnaçom e silêncio em flagrante contraste, nesta hora decisiva para o futuro do galego, nom podia por menos de provocar dissabor entre os leitores reintegracionistas do Assim, como foi o meu caso, quase a ponto de eu acolher Fernando Venâncio na nossa casa.

Apartei da memória de imediato o dissabor experimentado na leitura do Assim para concentrar-me nas tarefas prioritárias da amizade: conhecer melhor a biografia e personalidade do nosso convidado e procurar fazer-lhe grata a estadia em Compostela. Cumpridas à risca as regras elementares do bom anfitriom, a começar polo estrito respeito pola sua privacidade e liberdade individual sem inoportunas interferências, em seguida passamos ao amistoso cultivo das afinidades electivas constatadas, com Ana como eficaz e discreta mestra de gastronomia e convivência.

O repasso a nossas respectivas biografias e peripécias vitais propiciou saborosas conversas nas que pudem apreciar os amargos dilemas que houve de superar Fernando para chegar a ser quem é. A sua sigilosa fuga de um Portugal inóspito para escapar à guerra colonial e ganhar a liberdade, com abandono de estudos, querenças e família. A árdua adaptaçom a umha Europa próspera e culta, mas também alheia, que lhe permitiu formar afinal umha família, aceder à docência universitária e desenvolver a sua vocaçom filológica. Creio ter compreendido a raiz da existência autónoma e solitária que Fernando Venâncio elegeu para conformar essa personalidade auto-exigente e resoluta que o caracteriza. Um certo ascetismo vital, atreveria-me a apontar, compatível com a solidom laboriosa e o amor ao lugar nativo que configura a sua personalidade. O apreço polo homem por cima do autor foi para mim o melhor fruto desta convivência em busca da vera effigies do amigo.

A estadia compostelana deu para muito apesar da sua brevidade, interrompida ainda por deslocamentos intercalares a Vigo e Corunha para atender as correspondentes apresentaçons. Deixei sobre a mesinha de cabeceira do amigo dous livros a maneira de presente, um sobre os afectos pátrios pretéritos do pensamento galeguista e outro sobre a suposta autoridade dos dicionários, como amistosa ajuda a conciliar um sono prazenteiro. Sobre a mesa de trabalho, reservada para ele e o seu computador, deixei outros dous livros por se fossem do seu interesse. Um encantador relato das viagens e amizades de Unamuno por terras de Portugal escrito por Agustín Remesal e um sólido artefacto interpretativo da polémica normalizadora do galego da autoria de Mário Herrero Valeiro: Guerra de grafía, conflicto de elites, um subtil convite do anfitriom neste caso a revisar as ríspidas posiçons derrogatórias esgrimidas por Fernando contra o movimento reintegracionista.

Decidido a nom importunar o meu respeitado convidado com apologias extemporáneas, renunciei de entrada a leccioná-lo sobre os indiscutíveis êxitos do movimento reintegracionista que, além do mais, Fernando Venâncio conhece bem. Nom me pudem subtrair, nom obstante, a esboçar algumha crítica, que estimei obrigada, aos lamentáveis efeitos da torpe subordinaçom ao castelhano nutrício dos órgaos gestores do idioma, RAG e ILG.

A manifesta dependência do galego de curso oficial do padrom castelhano é a inevitável consequência do labor de umha estirpe de filólogos educados na espanholíssima matriz ideológica de Ramón Menéndez Pidal retransmitida polo seu fiel discípulo Constantino Garcia. O resultado nom podia ser outro que a degradaçom do galego a língua regional espanhola, incompatível com a sua entidade nacional e projecçom internacional como variante legítima do português. Algum pequeno exemplo. O dicionário RAG abona as formas *compoñente, *poñente e *propoñente (mas componenda, repare-se!) em ilícita degradaçom do registo culto ao mais crasso e artificioso registo popular. Outro mais ainda. O dicionário RAG consagra o formato *benestar, por bem-estar, incorrendo em torpe decalque espanholista que, para maior desgraça, corrompe a fonética correcta da palavra — do “n” palatal genuíno e o “e” aberto de bem aos seus sucedáneos espanhóis — em prejuízo da correcta pronúncia galega, recomendada aliás na própria transcriçom fonética oferecida no dicionário.

Postos a emproar rumo ao espanhol, o estropício sobre o resistente idioma secular passa a corromper a ortografia histórica dos topónimos e antropónimos. Decreta-se a obsolescência definitiva de todo topónimo marcado polo signo infamante de “g” ou a “j” ante “e” ou “i”. As Mogia, Júvia, Ginzo, Laje, Gimonde, Rianjo e tantas outras ficam obrigadas a adoptar o “X” como panaceia descaracterizadora. Os numerosos topónimos portadores de “g” ou “j” delator da sua gloriosa estirpe histórica, espalhados por sinal mundo adiante, ficam submetidos à lei de estrangeirice na naçom que os criou.

Quanto aos antropónimos, é outro falar. Vista a tenaz resistência a se conformarem ao molde decretado ad usum Delphini, admite-se serem pronunciados à espanhola como é costumado: Feijoo, Rajoy, Sigirey, e tantos outros. Para os apelidos rebeldes ao torpe lifting pós-moderno decretado, a minha modesta recomendaçom é a de solicitarem nacionalidade catalã para se assegurarem a correcta pronúncia, como acontece com Junqueras e Pujol, que a ninguém enganam e todos pronunciam correctamente.

Intervim brevemente nesta linha crítica ante a ilustre mesa formada para apresentar o livro em Compostela: Victor Freixanes, Henrique Monteagudo, Fernando Venâncio e Marco Neves. A intervençom nom levantou excessivo entusiasmo na mesa, devo confessar.

Ironia? Desolaçom apenas, caro professor, polo delicado estado que atravessa o meu idioma e a altiva sobrançaria do quadro de doutores encarregados de remediá-lo.

1 Fernando Venâncio (2019), Assim nasceu uma língua/Assi naceu ũa lingua. Sobre as origens do português, Guerra e Paz Editores, Lisboa.

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