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Irlanda como modelo para a construçom nacional galega em Outeiro Pedralho

Irlanda como modelo para a construçom nacional galega em Outeiro Pedralho

Afonso Mendes Souto

Irlanda e Galiza partilham umha série de paralelismos históricos que, sobretodo no primeiro terço do século XX, fam da ilha um modelo que parece ser feito ad hoc para o nacionalismo galego de pré-guerra e a sua proposta cultural.

O facto de um passado comum celta, que cada vez menos estudiosas e estudiosos na Galiza parecem rejeitar, a dominaçom política e cultural em maos estrangeiras e a proximidade dentro da delimitaçom das coordenadas atlánticas fam com que a Irlanda e a Galiza tenham demasiados pontos históricos em comum como para obviar.

No século XVII, os chefes dos clans irlandeses tenhem que ir-se embora da Irlanda por causa da perseguiçom británica, fam-no indo a diversos pontos da Europa continental, mas a primeira parada é o porto da Corunha sob proteçom do reinado de Filipe II. Alguns destes nobres, e as suas famílias, deitam raízes na Galiza, como o conde O´Donell, que já conhecia a lenda medieval de Breogám do Leabhar Ghabhála, o livro das invasons da Irlanda, e enquanto chega pede ir ver a mítica torre do caudilho celta, que nom é outra que o faro romano de Hércules.

Ante os factos acima citados, aos poucos começa a desenvolver-se um nacionalismo irlandês que explora a cada vez mais todas as vias possíbeis: política, cultura, sindicalismo...

Em 1857, Manuel Murguia, em La Oliva, já referencia em ‘Del poeta de Galicia’ a vizinha do norte:

¡Oh! Galicia es la hermana de Irlanda, aunque una hermana menos desgraciada. Nosostros hemos visto bajar a las ciudades los infieles montañeses á quien el hambre y la peste, esos gemelos que son el azote de la poética Erin, acosaban de cerca’.

Após contextualizar e cenificar a irmandade entre os dous povos afirma que ‘Galicia, no ha tenido entonces ni un orador como O’Conell, ni un poeta como Moore’, para centrar-se já na figura do poeta romántico irlandês:

¡Pobre Galicia! No tuvo tampoco un poeta como Moore, que confundiese su canto entre el canto de su pueblo; que lanzase de un lado al otro de las cuatro provincias, un grito de libertad; que fuese en fin, su poeta, que captase sus infortunios, y que encendiese en su sangre el fuego del valor y no el de una estéril y engañosa esperanza. ¡Pobre Galicia!’.

Murguia, em definitivo, lamentava a ausência de um poeta destas caraterísticas na Galiza. Mas a situaçom havia mudar, porque com o século XIX, com motivo do fim do Antigo Regime, o aparelho do Estado espanhol agride ainda mais Galiza: levas para o exército, pressom fiscal, divisom provincial... Francisco Rodrigues (1988) e Justo Beramendi (2007) explicam como nom é por acaso que seja precisamente nesta época que ressurja a literatura galega e haja um acordar de um movimento cultural, social e político em chave pré-nacionalista (Provincialismo, primeiro, e Regionalismo, depois) que acabará por consolidar e materializar o caráter nacionalista em 1918 na assembleia de Monforte das Irmandades da Fala. Todo isto já o adverte o próprio Outeiro em Os Camiños da vida (1928):

Agora mesmo, n’ista mesma Europa que se gaba de ser tan culta hai moitas razas que sofren baixo a tiranía estranxeira. Pensaríase qu’están mortas si non falara a súa ialma nos versos d’algús poetas.

A causa irlandesa vai tomando corpo e em 1916 lançam a ofensiva da Páscoa e Eire levanta-se em armas contra a ocupaçom británica, perdem a batalha, mas a faísca já prendera e a notícia chega de lés a lés. Esse mesmo ano criam-se na Corunha as Irmandades da Fala, que, como vimos, no texto de Murguia, bebem de umha tradiçom que já tinha um olho posto na Irlanda.

A este novo projeto acaba aderindo Outeiro Pedralho, do grupo ourensano, ligado especialmente à revista Nós. É precisamente nesta revista, que Outeiro acode à Irlanda, além de nos seus romances, em textos como ‘Irlanda políteca no século XIX’, ‘Notas encol do sentimento da paisaxe n’antiga epopeya irlandesa’ ou na traduçom direta de fragmentos do Ulises de James Joyce.

Assi e todo, será numha das suas obras principais Os camiños da vida, onde integre a questom irlandesa como repertório para a construçom de naçom galega. Os melhores exemplos condensam-se no capítulo ‘O coto de Ushna’, quandoPaio descobre na casa um conto. Neste texto aparece um narrador em primeira pessoa que conhece a família O’Bryen, irmao e irmá. É através desta presença que coloca o elemento celta e irlandês: as lendas de Ossian, a luita pola independência, o vínculo religioso, o colégio de Sam Patrício de Compostela, etc. No relato há dous parágrafos especialmente significativos:

Mollados e cansos, adormecemos pouco denantes do día. Eu soñei coa mañá de gloria na aldea galega. Cando espertei figuraba seguir o ensoño: a nao flotaba coma un cisne viaxeiro nas augas tranquilas dunha badía engastada en campías verdecentes. Tomamos terra en Waterford. Sentín desexos de falar galego ós rapaces enlarafuzados que formiguexaban nas rúas estreitas ou baixo os treitos de colmo’.

Neste trecho, podemos ver, através da ideia de sentir a necessidade de falar galego na Irlanda, como o autor dá a entender a proximidade deste país com o nosso. Mas pola banda Irlandesa, tamém é visto de forma parecida como podemos ver aqui:

Namentres agardabamos pola dilixencia de Kilkenny, faleille de Galiza, do vivir nun pazo non lonxe da vila, cultivando os agros maternais. Desque saímos de Francia figuraba a Edith máis espiritualizada:

-“Moi feliz serei na túa terra semellante a Irlanda, coidando dos labradíos, cumprindo santas peregrinaxes, morando no pazo isolado, rico de lembranzas”.’

Neste fragmento, além de verificarmos a irmandade nacional através troca física de ideias, tamém aparece tal ideologema de forma transversal com o vínculo emocional entre Edith e o protagonista do relato. Neste fragmento, aliás, Outeiro mantém a tensom religiosa que ele tencionava, tamém como ponto de encontro iberno-galaico, quando fala em ‘perelinaxes’. Já que neste autor, há um outro interesse na hora de considerar Irlanda como modelo nacional, já que era um fervoroso católico, como se sabe que tamén o é o povo irlandês, sobretodo na altura, quer pola época em si quer por oposiçom à ocupaçom británica e assentamento de protestantes como proprietários e conseqüente reafirmaçom de mais um facto diferencial.

Outeiro Pedralho, além da literatura, ainda havia insistir na questom Irlandesa no Ensayo histórico sobre la cultura gallega (1933) com umha justificaçom teórica do Atlantismo.

Visto isto, ainda podemos acrescentar um último paralelismo Irlanda-Galiza através da obra outeiriana. Na década de 20 do século passado, quando os membros da ‘geraçom’ de Outeiro decidem modernizar a literatura galega, aparece o Ulises de James Joyce (1922), obra que renova a narrativa universal. O nosso autor nom deixa passar por alto este facto e traduz alguns fragmentos do romance que publica em Nós em 1926, o episódio ‘Ithaca’ na íntegra e trechos de ‘Cyclops’. Esta traduçom foi anterior à que fijo Dámaso Alonso, primeiro em traduzir para o castelhano.

A importáncia simbólica da primeira traduçom do Ulises para o galego, embora fosse fragmentária, tem muita importáncia por diversas razons:

-Há que lê-la em chave do papel que a elite intelectual galega assumiu na altura, como guia na construçom nacional.

-Por outra parte, quanto ao critério da seleçom de fragmentos deste texto de Joyce, central na literatura moderna universal, e a capacidade de fazer umha traduçom digna, como assi a valora A.R. De Toro em La literatura irlandesa en España, tendo em conta os recursos disponhíveis polo responsável da traduçom, revelam umha altura intelectual muito elevada e ambisiosa.

Por outra parte, é habitual, em autores de literaturas coloniais da época ao serviço da construçom nacional (José Martí, James Connolly, Amílcar Cabral, Sabino Arana...) a multidisciplinaridade: escrita, traduçons, ativismo político (Outeiro foi deputado polo Partido Galeguista), etc, havia muito que fazer novo e em chave nacional.

Ainda, em 1935, há mais umha influência de Joyce no Devalar de Outeiro como aponta A.R. de Toro em ‘La huella de Joyce en Galicia’:

En esta novela se recogen las tribulaciones de Martiño Dumbría, el joven estudiante de diecisiete años que desde su cuarto mira a la Torre del Reloj de la Catedral de Santiago y se plantea el reto: "Traballarei meu esprito ca forza e a lediza con que foi isa torre traballada", palabras que nos hacen recordar a Stephen en las líneas finales de A Portrait.

Dito todo isto, podemos concluir que Outeiro Pedralho nom só recolheu umha tradiçom que olhava para a Irlanda como modelo político e cultural. O nosso autor integrou este elemento na sua literatura, teorizou sobre a questom, introduziu matizes afins à sua ideologia mais particular e soubo ver o que ia virar trascendental, como o Ulises de Joyce, para traguer à Galiza. Isto mesmo havia contribuir, de passagem, para a proposta de renovaçom da literatura que se tencionava na época.

Em definitivo, temos em Outeiro, portanto, um dos exemplos paradigmáticos de como a Irlanda serviu como modelo ad hoc para parte da proposta cultural que traguia o primeiro nacionalismo pleno da Galiza, que era um projeto de renovaçom literária em chave de construçom nacional. O nosso autor, cumpriu à perfeiçom o papel habitual das elites intelectuais que trabalhárom pola construçom nacional e no seu caso a questom irlandesa foi muito importante.

Última modificação emTerça, 10 Abril 2018 09:40
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