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Fronteira norte: óptica de Estado e distorçom perceptiva

Fronteira norte: óptica de Estado e distorçom perceptiva

Joám Lopes Facal

A Galiza não tem papel nenhum na auto-imagem dos portugueses, afirma Fernando Venâncio. E ainda avisa do erro fatal de o galego projectar sobre Portugal um interesse que é, fundamentalmente, unilateral. Também lembra um texto dos noventa de Pilar Vázquez Cuesta onde a professora afirmava que o diálogo Galiza — Portugal era inevitavelmente assimétrico.

Tam unánimes asseveraçons, com as que aliás concordo amplamente, subestimam ou esquecem simplesmente um importante aspecto da questom. Refiro-me ao chocante contraste entre a problematicidade da "identidade espanhola" — especialmente no imaginário das naçons culturais em conflito latente ou expresso: Catalunha, País Basco e a Galiza — e o inquebrantável unitarismo político e cultural que caracteriza Portugal. Umha pátria, umha língua, umha bandeira, pode ser um lema indiscutido em Portugal, como, aliás, na França; na Espanha, no entanto, a fronteira interior é inevitável. A linha de fractura que ressurge em cada ocasiom em que vigora a democracia no Estado espanhol. O substantivo "espanhol" nom deixa de suscitar receio: I e II República, crise económica institucional desencadeada em 2008 sirvam de exemplo. A democracia veste na Espanha indumentária plurinacional, as particularidades regionais ficam sufocadas em Portugal em veste estatal. Inquietaçom nacionalitária na fronteira norte de Portugal, imperturbável patriotismo ao outro lado.

O sucesso de um Estado mede-se em boa parte na capacidade demonstrada de eliminar as fronteiras internas e confirmar as externas. O sistema educativo, os meios de comunicaçom, o sistema parlamentar, som eficazes instrumentos de homogeneizaçom e, em situaçons críticas, de fervorosas unanimidades. Os encontros internacionais de futebol som um experimento sociológico contundente da capacidade aglutinadora do Estado.

A importáncia do facto apontado, um lugar-comum, aliás, na análise política desde Michael Billing1, impregna qualquer interpretaçom do indivíduo em comunidade que se pretenda realista, sem esquecer a sua capacidade para passar desapercebido aos seus tributários. Só as identidades de carácter sub-estatal ficam expostas á consideraçom de excêntrica mania, o nacionalismo banal incutido polo Estado torna-se inodoro e invisível por natureza.

O acendrado nacionalismo português — que já tem experimentado episódios de providencialismo milenarista — impregna o imaginário político lusitano. A atençom á custódia de fronteiras, reforçada por alianças cautelares contra ameaças externas, constituem invariantes na história do país. A magnificência das fortaleças fronteiriças — Valença, Elvas, podem ser um bom símbolo — som admirável monumento a esta vigilante vontade de independência. Os 1214 km de fronteira que separam Portugal de Espanha desde a Paz de Zamora de 1143 cristalizárom de algumha maneira em limes definitivo entre o próprio e o alheio contribuindo ao tempo a apagar a ténue rede de fronteiras interiores, tam manifestas em Espanha. A fronteira galaico-portuguesa, lucense-bracarense, mede 300 km: 24% do total mas, contodo, é muito mais permeável que a restante: a raia galega regista por si só mais volume de tráfico que todo o resto da raia espanhola.

A ampla descentralizaçom política do Estado espanhol observa-se com indiferença quando nom com um bocado de apreensom desde Portugal por quanto supom desafio implícito ao inveterado unitarismo português. Descendo ao plano linguístico, nom deixa de surpreender o manifesto contraste entre a facilidade com que na Espanha se atribuem procedências geográficas por marcas de fonética ou sotaque e a chocante incapacidade ou negligência portuguesa para distinguir singularidades regionais. Os diferentes sotaques do espanhol operam em Espanha como eficazes marcadores de diferença e identidade; em Portugal, esta capacidade taxonómica parece ficar atenuada, quer pola sólida homogeneizaçom linguística que caracteriza o país país quer pola aceitaçom passiva da pronúncia lisboeta como modelo padrom. Um galego nom pode deixar de surpreender-se de que o seu sotaque e vocalizaçom, o delatem de imediato em Espanha mas passe desapercebido para um refinado ouvido português cuja destreza linguística fica mais que acreditada.

Resulta chocante contemplar a distorçom perceptiva que impede os portugueses captarem a diferença de falares entre galego e castelhano, mesmo que seja um galego descaracterizado como o habitual nos meios. Mas assi é, se acreditamos em Marcos Neves2: "A maioria vê a questão de forma binária: o que se houve pela Península fora só pode ser português ou espanhol". Um autêntico ponto cego da percepçom que aponta para um avançado processo de metabolizaçom do discurso do Estado a da disjuntiva que promove: nós ↔ eles. Hispanidade e a lusitanidade nom gostam de peculiaridade.

A geraçom a que pertenço, que apreendeu português com José Afonso e ficou fascinada com a Revoluçon dos cravos, resiste-se a considerar Portugal em termos de simples boa vizinhança. A Galiza, nom é a Extremadura espanhola, tam atenta aliás ao idioma português, ou acaso é confundida como província limítrofe inespecífica no imaginário português?

Galegos e portugueses parecem competir hoje na prática da desmemória colectiva em indigno tributo a séculos de educaçom patriótica estatal. Atreveria-me a convidá-los a visitarem o Panteom Real da catedral de Santiago3 como tributo merecido á reprimida raiz histórica comum.

Aproximemo-nos com respeito ao lugar onde repousa Raimundo de Borgonha (1050-1107), esposo de dona Urraca, filha de Afonso VI, progenitores ambos de Afonso VII, o imperador, nado em Caldas de Reis e proclamado rei da Galiza por Pedro Froilaz, conde de Trava, antes de ser confirmado na catedral por Diego Gelmírez em 17 de setembro de 1111. Nom esqueçam que Raimundo era irmao do papa Calixto II, benfeitor da Catedral e pretenso autor do ímpar Codex Calixtinus, o nosso autêntico álbum de família.

Detenham-se um momento perante dom Pedro Froilaz, conde de Trava, (1075-1128), aio de Afonso VII e amante e defensor da rainha Teresa, irmã de Urraca, depois de o seu esposo Henrique de Borgonha ter falecido e engendrado Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.

Rendam umha pequena homenagem a Fernando II, (1137-1188), filho de Afonso VII, esposo dumha irmã de Afonso Henriques, e mecenas generoso do excelso Pórtico da Glória em cujo dintel podemos ler o ano da morte do monarca: 1188. Nom esqueçam também o seu filho Afonso IX (1171-1230), oitavo da dinastia galego leonesa e generoso protector do sem-par Mestre Mateus nem a rainha Berenguela Berenguer (1108-1149), fiel esposa de Afonso VII e nai de Fernando II, ali soterrada. Acharám a faltar no Panteom o túmulo de Afonso VII, rei fugaz da Galiza e imperador da Hispánia que dorme o seu somo derradeiro na catedral de Toledo por ter-lhe sobrevindo a morte em 1157, quando se retirava em derrota da Almeria recém-recuperada polos Almóadas.

Rendam ainda tributo de saudade merecido a dona Joana de Castro, filha do primeiro Conde de Lemos, Monforte e Sárria, Pedro Fernández de Castro, e fugaz esposa de Pedro I de Castela, falecida em 1374. A sua memória conduzirá-nos a recordar a sua meia-irmã, Inês de Castro, cuja desventura custodia Alcobaça.

Restos de memória comum de quando a Galiza partilhava versos e batalhas Minho através, memória esvaecida em procura de futuro partilhado: europeu e atlántico, reintegrado.

Alianças e rivalidades, luitas fratricidas também quando a história nos enfrentou: "Desde el año de 1640, en que se principió la guerra de Portugal (...) habiéndose consumido las vidas de más de 200 mil hombres, sustentaron también 2.000 caballos (...) dieron el número de 10 mil peones de la continua, con armas y vestidos (...) cayéndose muert por los caminos (...) cargados y perseguidos de soldados y ministros (...) hasta el año de 1668 en que se ajustaron paces con Portugal" Relata o nosso grande economista ilustrado, Lucas Labrada. Talvez haja exagero nos números mas nom na desgraça compartida. Logo após, a Galiza sumiu-se em ruralidade resistente e Portugal em desmesura náutica.

Afinal, "galego" virou em substantivo pejorativo com que a urbanidade pretensiosa pretende abafar a ruralidade esquecida, de ontem mesmo apenas: carregador, labrego, rude e grosseiro, eventualmente louro. Lemos no Houaiss.

(3) Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo: indivíduo nascido em Portugal, esp. os de mais baixo nível de cultura

(4) Regionalismo: Nordeste do Brasil e Santa Catarina. Uso: pejorativo: qualquer estrangeiro; gringo

(5) Regionalismo: Nordeste do Brasil: indivíduo louro

(6) Regionalismo: Portugal. Uso: informal: carregador de bagagens ou transportador de fretes, freq. natural da Galiza

(7) Regionalismo: Portugal. Uso: informal: indivíduo que trabalha arduamente, que realiza trabalho pesado. Ex.: trabalhou como um g. para educar os filhos

(8) Regionalismo: Portugal. Uso: pejorativo: individuo rude, grosseiro; labrego

(9) Regionalismo: Alentejo. Uso: pejorativo: o que é natural ou oriundo do Norte de Portugal, esp. da região das Beiras.

Será que a excentricidade sobrevinda sobre galegos, minhotos, transmontanos e beiraos, simples fidelidade á terra natal, terminou acovilhando-os na ominosa fronteira exterior onde o próprio sotaque pode resultar suspeitoso? O relato nacional, bem sabemos, é pródigo criando patois contra a particularidade reprimida.

Conservam-se as cartas dirigidas por Felipe II entre 1581 e 1585 às suas amadas filhas, as infantas Isabel Clara Eugenia e Catalina Micaela aquando a sua viagem a Portugal para convocar cortes em Tomar. Epístolas encantadoras, por sinal, que desmentem a tétrica imagem difundida do poderoso monarca renascentista. As infantas residiam na altura em Aldeia Galega, perto de Lisboa, na rota tradicional desde Elvas a Lisboa. A vila acabou mudando tam inconveniente denominaçom, de Aldeia Galega do Ribatejo, Aldeia Galega ou simplesmente Aldegalega para Montijo «que melhor condiz com as suas tradições históricas". A mudança foi perpetrada em 1930 para assear de umha vez a dobre imputaçom despectiva por aldeia e por galega. O topónimo substituto tem um forte recendo castelhano — a montejo, montículo — mas, a aboliçom do incómodo gentílico tradicional pareceu naquele momento tributo inescusável á modernidade em estreia, como essas velhas histórias familiares que um nom gosta de divulgar e abandona com alívio.

1 Michael Billing (2014): Nacionalismo banal, Capitán Swing Libros, Madrid

2 Marcos Neves (2016): Doze segredos da língua portuguesa, Guerra e Paz Editores, Lisboa

3 http://galiciapuebloapueblo.blogspot.com/2017/11/catedral-capilla-de-las-reliquias-y.html

Última modificação emSegunda, 02 Julho 2018 23:18
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