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Às compras: Estabelecimentos comerciais da lusofonia

Às compras: Estabelecimentos comerciais da lusofonia

Diego Bernal

No bairro de Monte Alto, na Corunha, pertinho do farol mais antigo do mundo, há uma loja bizarra. Vista de fora, parece sapataria. Ao entrar é banca de jornal e padaria. Aliás, estantes com comestíveis outorgam-lhe patente de mercearia.

Na verdade cada país tem as suas peculiaridades quanto a estabelecimentos comerciais e na Galiza somos meio esquisitos.

No Brasil há alguns originais. Nas pamonharias é vendida a pamonha, doce ou salgada, feita a base de milho verde cozido enrolado nas folhas da própria maçaroca. Nas açaiterias, açaí, fruta roxa do Amazonas consumida principalmente na forma de gelado e servida com diversas coberturas como frutas, leite condensado, em pó, doce de leite, chocolate, frutos secos...

Na Galiza foi o polvo quem ganhou casa própria. As polveiras, tradicionalmente cozinheiras da iguaria, som hoje locais que costumam servir polvo à feira, quer dizer, cozido, temperado com azeite, pimentom e sal e acompanhado com cachelos -batatas cozidas- e um bom vinho tinto. Também pode ser servido à mugardesa ou grelhado.

Em Portugal, espalhados por Lisboa, há elegantes e senhoriais quiosques, onde os alfacinhas refrescam a goela nos calorosos veraos.

negócios cujo termo difere entre as variedades europeias e americana da nossa língua.

Assim, os ginásios som chamados de academias no Brasil. Florista em Portugal é floricultura no Brasil. O talho é açougue e o talhante, açougueiro. As discotecas som boates. As frutarias, antigamente conhecidas em Portugal polo poético pomar, som denominadas hortifrúti ou sacolão. As geladarias ou gelatarias som sorveterias no português brasileiro. Os alfarrabistas, livrarias especializadas em compra-venda de livros em segunda mao, som sebos. As bombas de gasolina ou gasolineiras viram postos de gasolina. Um cyber é uma lan house e um videoclube umha vídeo locadora. As tascas e tabernas galego-portuguesas som designadas como antigamente em Portugal, botecos ou botequins, enquanto bar é usada em ambas as beiras do Atlântico. No Brasil, lancha-se na lanchonete e a cantina universitária também é conhecida como bandejão. Já Baiuca é arcaísmo que às vezes virou topónimo nos três países mas, no caso galego, ainda tem certo uso com o significado de taberna.

baiuForma antiga, e muito do meu agrado, é casa de pasto. Machado de Assis, num dos seus mais conhecidos romances cariocas, Memórias Póstumas de Brás Cubas, escreve: “Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário comer, e as casas de pasto não fiam”. Hoje galegos, portugueses e brasileiros usamos o vocábulo de origem francesa restaurante. Embora no Rio de Janeiro não haja mais casas de pasto é fácil dar com bistrôs, galicismo usado para restaurantes pequenos e charmosos. O modo de comer brasileiro é bem diferente ao galego-português. O quotidiano som os restaurantes a quilo, bufê onde se paga segundo o peso do prato e em datas especiais rodízios em pizzarias, churrascarias ou restaurantes japoneses, comida à vontade por um preço fixo. Cachorro quente ou hambúrguer na rua é no trailer ou podrão. Enquanto na Galiza e em Portugal corriqueiro é o menu do dia ou a la carte.

Existem também falsos amigos, ou falsos cognatos, tanto com o espanhol como entre as diferentes variedades da língua galego-portuguesa.

As mercearias som tiendas de barrio em espanhol, e as mercerías som retrosarias em português. Oficina em português é taller em espanhol –no Brasil é habitual a borracharia, oficina na estrada para trocar pneus- e oficina em espanhol é escritório em português.

Entre as variedades do galego-português destacam falsos amigos como as pastelarias portuguesas, especializadas em deliciosos doces como os pastéis de nata, som confeitarias no Brasil como a majestosa Confeitaria Colombo do Rio de Janeiro. Enquanto nas pastelarias brasileiras som consumidos os pastéis salgados de carne –empada frita- e o magnífico caldo de cana –sumo de cana de açúcar.

Noutras ocasions, os padrons nacionais da Galiza e Portugal diferem em escolhas morfológicas com o padrom brasileiro. O sufixo patrimonial –aria, habitual na criaçom de palavras vinculadas ao campo léxico dos estabelecimentos comerciais –peixaria, alfaiataria, barbearias, ourivesaria, drogaria, papelaria, relojoaria...- é menos produtivo no português brasileiro que por vezes prefere a variante de origem francesa –eria para palavras surgidas a partir do século XX, tal e como demonstrou a professora e amiga Valéria Gil Condé num estudo  publicado pola USP. Assim as cafetarias som cafeterias, as joalharias som joalherias, as cervejarias costumam ser choperias, as leitarias leiterias e as serralharias serralherias. Também as lavandarias, que por vezes partilham espaço com engomadorias ou tinturarias, no Brasil viram lavanderias. Mais recentemente surgírom as tatuerias, dedicadas a fazer tatuagens.

No entanto, em Portugal o sufixo –eria também tem produtividade como demonstram as modernas e tam na moda hamburguerias.

Alguns estabelecimentos comerciais em português som formados com a palavra loja na frente. Eu sou neto de comerciantes que tinham umha loja de brinquedos, o bazar Bernal e umha loja de ferrangens, sediadas na praça do Toural e na rua das órfãs respetivamente, ambas no centro histórico de Santiago de Compostela. Nesta categoria estariam as lojas de conveniência das gasolineiras.

Por último, trago à tona duas palavras que aprendim recentemente. Em Portugal, pronto-a-vestir. É um tipo de loja de roupa. No Brasil, empório, estabelecimento onde som vendidos víveres, como secos e molhados. Os empórios podem ser finos ou populares ou especializados num produto concreto, p. ex. empório de vinhos.

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