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Fé de vida

Fé de vida

Joám Lopes Facal

Para Ernesto Vazquez de Souza, que tam amavelmente me obriga a antecipar esta confissom devida.

Preferem recorrer a fórmulas como atestado ou prova de vida para testemunhar a continuidade vital. Vou contrariar desta vez os vizinhos do sul, prefiro fé de vida por essa inspiradora ambigüidade que tinge a expresom como declaraçom de estar vivo e de manter conviçons próprias, ao mesmo tempo. Sirva o gracejo de amistosa saudaçom à irmandade agálica, na qual me reconheço ainda, e de oportuna escusa para informá-la da minha nova condiçom simbólica de presidente da AEG, adquirida por inesperada deferência da assembleia constituinte. Assumo a condiçom como honor sobrevindo que pretendo exercitar com a diligência e a discreçom que demanda o encargo. Nom gosto de figurar mas costumo assumir o peso – o ónus, como bem dim os portugueses – das voluntárias decisons que um adopta.

Aproveito a ocasiom para expor neste amigável foro aberto as razons da minha mudança de pele, que nom de identidade. Para expor concisamente os motivos que explicam o nascimento da AEG como entidade autónoma na constelaçom reintegracionista. Nom será preciso acrescentar que nom guardo pisca de ressentimento pola confortável estadia na casa matriz da AGAL. Simplesmente, cheguei à conclusom (felizmente em companhia) de que a agenda actual da AGAL divergia da que me levara à associaçom, da mao amiga de Valentim Fagim um bom dia lá no Porto.

O motivo imediato do processo de desconexom foi, como talvez suspeitedes, a aprovaçom pola Assembleia da AGAL de outubro do ano passadoda agenda denominada de confluência normativapor esmagadora maioria. A legítima decisom colectiva significou para mim, a definitiva consagraçom da hipótese de vestir o galego em adiante com exótica indumentária portuguesa. Lamento que o conflito coincidisse com a eleiçom do meu amigo e respeitado professor de português, Eduardo Maragoto como presidente da AGAL, mas, as afinidades persoais e os dissensos ideológicos ou orgánicos seguem vias diferentes. A amizade é, naturalmente, o bem superior.

Fica no ar à maneira do Dylan a pergunta inevitável: mas, acaso nom acredita o senhor em que o galego e o português sejam a mesma língua? Bom, a categoria lógica de identidade é muito exigente, de facto, estou quase seguro que, a comunidade dos utentes de ambas as variantes do galego-português, teriam sérias dificuldades para concordarem em tal identidade. Prefiro suster com a sobriedade que requerem assuntos de identidade que o galego e o português som idiomas da mesma origem e natureza, posteriormente marcados por histórias divergentes. A compreensom e atenuaçom da marca que desfigura o nosso idioma é a tarefa essencial do reintegracionismo.

Um reputado especialista na matéria da marca que estigmatiza o nosso idioma tem elaborado umha taxonomia precisa dos processos degradativos que abafam o léxico herdado: variaçom sem padronizaçom, substituiçom ou suplência castelhanizante, estagnaçom, erosom. A diagnose rigorosa é indispensável para esquivar vias ocluídas no processo reabilitador e combater ilusórios tratamentos paliativos como os prescritos polo poder glotopolítico em funçons. O problema, amiga comunidade agálica, estriba no desenho do tratamento reabilitador e na sua aceitaçom social. Aceitaçom social, eis a variável decisiva.

O autêntico problema, como sabemos, nom é filológico, é político. A variante do galego-português que praticamos desde há séculos adoece de graves achaques de velhice e maltrato enquanto espera – em passiva desesperança – a política reabilitadora requerida, à altura dos meios disponíveis na actualidade, capaz de devolver-lhe a plena operatividade e restituirlhe à plena comunhom com o português internacional.

Indo ao concreto, sou da opiniom de que a briga em que se debate o galego é duplo e simétrico: de umha parte o assimilismo (fugida para o espanhol) e de outra o cosmopolitismo (fugida para o português). Na alocuçom de aceitaçom da presidência da AEG pretendim argumentar o meu dissentimento a respeito de ambas as derivaçons de signo escapista. Na segunda, está na origem do nascimento da nova entidade reintegracionista que me honro em presidir. A patente gravitaçom da AGAL cara a órbita AGLP explica em boa medida a desagregaçom do fragmento AEG em direcçom contrária, se me permitides a metáfora física.

Nom vou insistir na crítica á ideologia subjacente no programa assimilista do dueto ILG-RAG quetod@s partilhamos, parece-me mais pertinente, em contrapartida, referir-me ao programa implícito na estratégia baptizada de confluência normativa. O seu efeito, e talvez a sua pretensom, é propagar um modelo ortográfico, e mesmo morfossintáctico, do galego, émulo do português padrom. Na minha opiniom, a estratégia vai contribuir, em forma inevitável, a estranhar – do latimextranèus,a,um, ‘que é de fora’, segundo leio – o galego da sociedade que o possui e a erodir a tácita lealdade ao idioma próprio que sustenta a nossa resistência cultural desde há mais de um século. Corremos o risco de estimular o efeito sublimaçom – passagem do estado sólido para o gasoso – que ameaça o galego.

Alguém é capaz de distingui – nom falo de filólogos profissionais – um texto confluente-normativodo mesmo texto redigido em português? Alguém pode pôr em questom que é a identidade histórica que une subtilmente a comunidade dos galegos o elemento fulcral da secular resistência cultural que opomos à assimilaçom?

A dissonáncia perceptiva inoculada pola abusiva proliferaçom do til diacrítico, quando desnecessário, contribui a afrouxar por via simbólica a percepçom do galego como idioma próprio. Um pecado contra o preceito da estratégia da hegemonia que todo dirigente político conhece. O til desnecessário é um ornato caro em termos hegemónicos e umha vaza gratuita regalada aos agentes do espanholismo lingüístico.

O atalho lusitanista contribui aliás a reforçar a difusa consciência imperante do galego como tosco e cordial dialecto familiar complementar, subordinado ao espanhol e o que é pior ameaçado polo português a olhos dos observadores acondicionados. Dissolver preconceitos é um labor preliminar que a opulência ortográfica neutraliza.

Ninguém deveria ser distraído do labor primordial de restituir a grafia histórica do galego para poder ler correctamente os nossos patronímicos – Rajoi, Feijó, Sanjurjo, Gestoso – sem ofuscar a essencial nitidez da escrita. A estratégia restauradora e o rigor filológico exigem mesura gráfica e austeridade estilística. A mensagem é simples: este é simplesmente galego bem escrito.

Sou consciente de que nada de essencialmente inadmissível separa os reintegracionistas de qualquer condiçom, incluídos os reintegrantes latentes, refugiados em prudente privacidade, mais numerosos talvez do que pensamos. Só o assédio institucional e a incompreensom social que cercam o movimento magnificam as hipotéticas diferenças. É o destino dos marginalizados em qualquer sistema de poder.

Colaborei e pretendo seguir colaborando se a ocasiom se apresentar com a AGLP, e nom digamos com a AGAL, a minha segunda morada. A minha adscriçom à AEG responde ao mesmo impulso que a prévia que efectuei na AGAL. O nascimento da AEG tem algo de modesta retirada ante a entusiasta unanimidade que saudou a adopçom da agenda confluente.

Refugiar-se na resistência partilhada pode ser um bom preceito para afrontar a “dura adversidade urgente”, opinava Pondal. Afinal, todos fazemos parte como elo frágil e transitório da longa cadeia de resistência e dignificaçom cultural inaugurado com o programa restaurador já centenário das Irmandades. Nisso estamos. Por enquanto, umha ética de respeito mútuo e competência cooperativa deveria presidir as relaçons mútuas. Ninguém mudou de bando, apenas de posiçom na frente activa. Nesta guerra de posiçons, ou talvez de movimentos na fase actual, os activistas lingüísticos estamos irremediavelemente próximos.

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