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As duas palavras galego-portuguesas mais internacionais, com um epílogo galego tragicómico

As duas palavras galego-portuguesas mais internacionais, com um epílogo galego tragicómico

Carlos Garrido

Se perguntássemos a um europeu culto, e com cultura lingüístico-literária, qual acha que é a palavra galego-portuguesa mais idiossincrásica, é provável que aduzisse a voz saudade [1]. Num sentido antitético, aqui queremos apresentar ao leitor aquelas que, com bastante certeza, som as duas palavras galego-portuguesas mais internacionais, ou seja, os dous vocábulos que, cristalizados no ámbito lingüístico galego-português, mediante transferência interlingüística (direta ou indireta), hoje estám naturalizados num maior número de idiomas, tanto románicos como nom románicos. Quais som essas duas palavras? Escusando-nos perante os admiradores do poeta Fernando Pessoa e do detetive Pepe Carvalho, cujas projeçons som, decerto, internacionais, devemos admitir que esses dous vocábulos nom som pessoa (variante lexical histórica que, num galego plenamente regenerado, deve ser preferida à variante histórica persoa!) nem carvalho, mas outras duas vozes patrimoniais, surgidas na Galiza e em Portugal antes do século XVI, e que, como veremos, além da sua prosápia latina, compartilham a circunstáncia de terem sofrido na sua transplantaçom interlingüística umha nítida, embora nom radical, mutaçom semántica. Estamos a referir-nos, nomeadamente, às palavras —ou, mais estritamente, aos significantes— cobra e marmelada, designativos, respetivamente, de umha realidade zoológica, a de um grupo de répteis escamados, e de um produto alimentar, um doce pastoso elaborado à base de fruta.

Com efeito, recorrendo ao elenco de versons da Wikipédia, e com base nos artigos ingleses “cobra” e “Naja” (correspondente género [proto]típico), podemos reconhecer descendentes da cobra galego-portuguesa (com umha pequena dispersom formal) em castelhano, catalám, francês, italiano e romeno, entre as línguas novilatinas; em africánder, alemám (como Kobra), dinamarquês, inglês, neerlandês, norueguês e sueco, entre as germánicas; em bielorrusso, búlgaro, checo, polaco, russo, servo-croata e ucraniano, entre as eslavas; em bretom, gaélico escocês e irlandês, entre as célticas; em estoniano, finlandês e húngaro, entre as ugro-finesas; em lituano, entre as bálticas; em albanês, grego (como κόμπρα) e basco, entre as europeias de outras famílias e, enfim, em somali, curdo e turco, entre as extraeuropeias. Quanto a marmelada, e com pequena dispersom formal, reconhecemos na Wikipédia, a partir do artigo inglês “marmalade”, naturalizaçons do termo em castelhano (como mermelada), catalám, francês e italiano, entre as línguas novilatinas; em africánder, alemám, dinamarquês, inglês, neerlandês e sueco, entre as germánicas; em bielorrusso, búlgaro, checo, eslovaco, esloveno, polaco, russo, servo-croata e ucraniano, entre as eslavas; em finlandês, entre as ugro-finesas; em letom e lituano, entre as bálticas; em grego e basco, entre as europeias de outras filiaçons, e, enfim, em cazaque, turco e vietnamita, entre as extraeuropeias. Rica e cosmopolita descendência, portanto, a destas palavras, e as duas listas de línguas recetoras, podemos estar certos, nom som exaustivas.

1. Cobra

O caso de cobra é assaz curioso. A voz, abonada pola primeira vez em galego-português no século XIII, deriva do étimo latino colūbra e, como este, significa em galego-português ‘serpente’ (o que na Galiza ainda se pode verificar, sobretodo, por causa da rampante castelhanizaçom, entre falantes idosos do meio rural!), polo que é cognada da castelhana culebra [2]. Ora bem, fora do galego-português, em todas as outras línguas que acolhêrom a palavra, cobra denota um grupo (nom natural do ponto de vista da zoologia sistemática) de serpentes, todas muito venenosas, da subfamília Elapíneos da família Elapídeos que dilatam a pele da regiom cervical quando se excitam e que pertencem aos géneros Naja, Ophiophagus, Hemachatus, Pseudohaje e Aspidelaps. Como véu a acontecer que, para denotarem este grupo particular de cobras, de serpentes, tantas línguas tenham adotado a palavra galego-portuguesa genérica que significa ‘serpente’? A resposta a esta questom apresenta bases históricas.

Na Europa medieval, as serpentes ou cobras venenosas eram designadas, em conjunto, como áspides (palavra de origem grega) e as áspides eram, naquela altura, fundamentalmente, as víboras (ainda hoje, umha espécie europeia e ibérica de víbora, a Vipera aspis, se denomina (víbora-)áspide) e o elapídeo que atualmente se conhece nas variedades lusitana e brasileira do galego-português —e, como veremos, que em galego tamém se deve conhecer— como cobra-capelo-egípcia (espécie Naja haje). As cobras-capelo-egípcias —presentes, além de no Egito, tamém noutras regions africanas situadas a norte e a sul do deserto do Saara— eram, sem dúvida, animais conhecidos na Grécia clássica, na época do Império Romano e na Europa medieval, já que, nom em vao, no Antigo Egito se consideravam encarnaçom divina (deusa Uadjet ou Uto) e, enquanto tal, figuravam, estilizadas, no emblema do Baixo Egito e no diadema dos faraós (o uraeus), assim como, numha representaçom bastante realista, nalgumhas estelas funerárias (como a do faraó Seneferu); além disso, à picada de umha áspide, de umha cobra-capelo-egípcia, umha lenda muito popular atribuía a morte, por suicídio, da raínha Cleópatra (algo que, por sinal, estudos recentes desmentem).

No entanto, o conhecimento das cobras-capelo na Europa foi muito limitado durante toda a Idade Média, circunstáncia que só começou a mudar no século XVI, à medida que certos navegadores, soldados, religiosos e comerciantes europeus iam pondo o pé, pola primeira vez, em regions da África subsaariana, da Índia e da Ásia sudoriental em que habitam diversas espécies desse grupo de ofídios. E estes europeus adiantados nom eram senom portugueses (Era dos Descobrimentos, Carreira da Índia), os quais, ao verem cobras-capelo excitadas, erguidas, nom pudérom deixar de notar, admirados, a dilataçom cutánea, semelhante ao capelo ou capuz de um monge, que determina a expansom das suas costelas, polo que as chamárom, na sua língua galego-portuguesa, cobras de capelo, ou seja, «serpentes de capuz», e esse termo, abonado pola primeira vez em galego-português no século XVI, a partir de entom foi acolhido e acomodado, para designar esse grupo de serpentes exóticas, num grande número de línguas cultas, e nom apenas románicas ou europeias, como vimos. Ora bem, essa acomodaçom ou naturalizaçom de cobra de capelo (atualmente, nas variedades lusitana e brasileira do galego-português e, desejavelmente, tamém em galego, cobra-capelo), verificou-se em todas as línguas recetoras mediante truncamento, com eliminaçom, mais ou menos precoce, do segundo componente substantivo do termo original (capelo), pois a palavra cobra (ou Kobra, etc.), por si só, revelava-se suficiente e nom colidia, em nengumha das línguas recetoras, com a denominaçom tradicional do conceito ‘cobra, serpente’ (a qual é, por exemplo, culebra em castelhano, couleuvre em francês, snake em inglês, Schlange em alemám). Assim, se, em inglês, o empréstimo galego-português se abona no século XVII como cobra (de) capello, no século XIX já se simplifica em cobra.

2. Marmelada

Em galego-português, marmelo significa ‘fruto do marmeleiro [árvore Cydonia oblonga]’, palavra, esta, que deriva do latim melimēlon, e esta, do grego μελίμηλον (literalmente, ‘maçá [ou fruta] doce [ou com mel]’). O doce pastoso e compacto feito com marmelo, conhecido em castelhano como (dulce de) membrillo, denomina-se em galego-português, seguindo um procedimento derivativo freqüente, marmelada (cf. laranjada ‘alimento derivado da laranja’, limonada ‘alimento derivado do limom’, etc.). Dado que durante os séculos XV e XVI, em ligaçom com a expansom marítima de Portugal, os comerciantes lusos vendiam em grande parte da Europa produtos alimentares mais ou menos exóticos (mediterráneos, orientais), nom admira que a denominaçom com que esses mercadores rotulavam o doce de marmelo, marmelada, eventualmente erigido em protótipo de conserva elaborada com fruta, vinhesse a designar em várias línguas europeias, de forma genérica, os doces pastosos de fruta, ainda que, curiosamente, nom o próprio doce de marmelo, que já teria nessas línguas nomes específicos bem assentes (como al. Quittenbrot, cast. (dulce de) membrillo, cat. codonyat, fr. pâte de coing, ingl. quince cheese) [3].

Assim aconteceu, por exemplo, em castelhano, em que marmelada se transformou em mermelada, e em francês, com a sua mais conservadora marmelade, origem, por sua vez, entre outras, da alemá Marmelade e da inglesa marmalade. A soluçom inglesa marmalade, registada pola primeira vez em 1480, mostra umha mutaçom semántica adicional, pois, a partir do século XVII, passa a designar exclusivamente o doce pastoso elaborado com citrinos, e preferentemente com laranjas-amargas, reservando-se nessa língua a voz jam como denominaçom genérica dos doces pastosos de fruta (e esta restriçom semántica parece que tamém se regista em neerlandês e em africánder).

Umha última questom de interesse neste contexto é como se denomina, entom, em galego-português o doce pastoso feito a partir de frutas diversas, já que a voz marmelada, como vimos, e como é lógico, se refere especificamente ao doce de marmelo. Essa denominaçom galego-portuguesa, num típico «cruzamento lexical» com o castelhano, é doce de fruta, por exemplo doce de laranja, doce de morango, doce de pêssego, ainda que no Brasil seja muito freqüente o uso da voz geleia nesse mesmo sentido.

3. Epílogo galego tragicómico

Até aqui, vinhemos falando da língua galego-portuguesa como un bloco homogéneo, e com razom, porque as palavras cobra ‘serpente’, marmelo ‘fruto do marmeleiro’ e marmelada ‘doce de marmelo’ nascêrom, antes do século XVI, no território que hoje é a Galiza e Portugal, e tenhem-se usado nessa área (e tamém no Brasil, etc.) até à época contemporánea. No entanto, devemos ter em conta que, como sabemos, a vida do galego-português na Galiza, depois do esplendor medieval, é muito diferente da que tem tido em Portugal (e no Brasil): na Galiza, desde o século XVI, o galego-português está submetido a intensos processos de degradaçom lexical, induzidos, por causas políticas, por umha multissecular subordinaçom sociocultural ao castelhano, subordinaçom e degradaçom que se tenhem prolongado, sem correçom eficaz, e apesar dos esforços do movimento galeguista, até ao momento presente. Essa insuficiência lexical padecida polo galego é o resultado de vários processos degradativos bem caraterizados, um dos quais, precisamente, afeta as palavras e conceitos modernos que aqui tratamos, e, como vamos ver, esse processo degradativo ainda se vê agravado entre nós pola açom, tam freqüentemente inepta e nociva, do organismo até agora incumbido polo poder político de codificar o galego: a Real Academia Galega.

Com efeito, um dos processos de degradaçom lexical mais graves que padece o galego é a estagnaçom, que consiste em que a variedade galega do galego-português, desde o século XVI, por causa da sua subordinaçom sociocultural e correlativo isolamento, nom se enriquece neologicamente de forma autónoma (em coordenaçom com as suas covariedades luso-brasileiras), e, por essa causa, nom tenhem surgido em galego denominaçons genuínas, autónomas, para designar, entre outros milhares de realidades, o doce de fruta e as cobras-capelo, que, como vimos, som conceitos cujo surgimento na Europa é posterior, na prática, ao século XV. Nestas condiçons, o poder político escolheu na Galiza a Real Academia Galega (RAG), com exclusom —e marginalizaçom, e perseguiçom— de outras instáncias técnicas concorrentes, para cunhar os correspondentes neologismos. E como procedeu a RAG nos dous casos que aqui nos ocupam? Bom, como indicamos a seguir, mas —parafraseando o grande Castelao— nom vos riades, porque o conto é triste…

No seu dicionário, a RAG propom que designemos o doce de fruta em galego como… marmelada! Reparemos no evidente deslize: se em galego, como reconhece o próprio dicionário da RAG, marmelo significa ‘fruto do marmeleiro’, entom, marmelada (= cast. «membrillada») nom pode deixar de designar o doce (pastoso e mais ou menos compacto) de marmelo, e utilizar marmelada no sentido de doce pastoso elaborado com qualquer outra fruta é puro dislate. De facto, utilizarmos em galego, como propom a RAG, expressons como *marmelada de laranja é equivalente a dizermos «laranjada de limom», ou «limonada de laranja»… Quanto à designaçom em galego do conceito ‘cobra-capelo’, ou seja, o correspondente às cobras venenosas da família Elapídeos que dilatam a regiom cervical quando se alarmam, a RAG superou-se a si própria em perspicácia, porque nos propom, no seu dicionário, a denominaçom… cobra!! Isto, observemos, equivale a propor para o castelhano (como sabemos, cobra, em genuíno galego, significa ‘serpente’) que as cobras-capelo se denominem culebras! «As cobras son cobras moi perigosas» (= cast. «Las culebras son culebras muy peligrosas»), dirám os muito doutos membros da Real Academia Galega. Pura inteligência lingüística! Nom nos admiremos em excesso: é aquilo que costuma acontecer quando a política suplanta a ciência. [4]

Notas

[1] É de importáncia fundamental estarmos cientes de que, como me fijo ver o filólogo Jorge Rodrigues Gomes, Secretário e companheiro da Comissom Lingüística da AEG, as formas soedade e soidade (eventualmente deturpadas em *soedá e *soidá) registadas no galego espontáneo contemporáneo e, entre outros autores, em Rosalia de Castro, significam sempre ‘saudade’, quer dizer, som variantes (dialetais) da voz saudade, e que, portanto, o conceito ‘estado de quem se acha ou se sente desacompanhado, só’ nom se deve exprimir no galego culto, em contra do que hoje afirma o dicionário da Real Academia Galega, mediante a forma espúria soidade, mas mediante a voz, só no século XVI definitivamente cristalizada (em Portugal), solidom (ou mediante o cultismo solitude).

[2] Proveniente do mesmo étimo, tamém se regista na Galiza a variante cóbrega, que deve ser conceituada como dialetal frente a cobra, a forma (supradialetal) comum com as variedades lusitana e brasileira da língua.

[3] Um caso adicional, e radical, de influência dos comerciantes e mercadores portugueses na designaçom de alimentos em diversas línguas é o da laranja, que, em idiomas como o romeno, albanês, grego, búlgaro, árabe, persa e turco se designa com palavras similares a portugal.

[4] O presente artigo constitui umha versom um pouco modificada de um texto originalmente publicado polo autor em castelhano no Laboratorio del Lenguaje, blogue dedicado à linguagem médica e científica coordenado por Fernando A. Navarro e José Ramón Zárate (www.medicablogs.diariomedico.com).

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