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As múltiplas ortografias de Marco Neves

As múltiplas ortografias de Marco Neves

Joám L. Facal

As ortografias servem para separar e também para se reconhecer, como hábito do idioma que é — indumentária e costume — custa desprender-se dela. As mudanças de hábito costumam anunciar-se com tormenta. O Acordo Ortográfico, por exemplo, acabou atrapalhando o português transatlántico e dividindo os seus utentes em agentes ativos e passivos, concordantes, discordantes ou simplesmente pacientes. No confronto de formatos, o próprio tem sempre o seu aquel de elegante e o adverso de afetado e desajeitado.

Gosto de frequentar os debates e entrevistas na TV brasileira sobre as diferenças ortográficas e fonéticas no português intercontinental e a conveniência ou impertinência do AO90. Escuito os entrevistados: Evanildo Bechara e Sérgio de Carvalho Pachá, Marcos Bagno e Ataliba Teixeira de Castilho; pondero os argumentos encontrados, comprovo a paixom polo idioma comum, discutido, comparado, confirmado. Desde a Galiza, a tormenta ortográfica do Acordo chega muito atenuada, o debate tem algo de ferida da pequena diferença, conotada de narcisismo identitário onde ecoa o passado colonial, os standards económicos e demográficos divergentes, o confronto de culturas: tropicalismo frente a europeísmo, sul e norte.

Marco Neves, Fernando Venâncio ou Miguel Sousa Tavares, a quem leio nestes dias, nom acreditam nas virtudes do AO90; eu tampouco nom obstante a geral devoçom do reintegracionismo polas mudanças ortográficas propostas nas quais se hipostasia a unidade da lusitanidade idealizada.

São Salvador de Bahía nom tolera a hipótese de degradar a ilustre prosápia do seu status toponímico à vulgar baía que lhe deu nome, de igual maneira que nunca um mexicano consentiria em ser degradado a simples mejicano. O modesto "ñ" que luz com orgulho o espanhol, e que, aliás, guarda suspeitoso parecido com a ostentosa peineta española — essa travessa de carrapito que as andaluzas gostam de luzir em festas assinaladas — é um ingrediente ortográfico imprescindível do ser metafísico da España, elevado, em quanto tal, á categoria de logo identificativo do Instituto Cervantes. Catalunya nom seria Catalunha sem se grafar Catalunya, formato — cumpre apontar — entusiasticamente adotado por alguns nacionalistas com saudades catalanistas em substituiçom dos magníficos dígrafos "nh" e "lh" que artilhamos com português do que fazemos parte a título de sócios fundadores. O "y" grego, na minha opiniom, está bem para cataláns em exercício da sua soberania linguística, quanto a nós, deveria ficar em hobby. O Priberam sugere aqui a substituiçom de hobby por passatempo em prova flagrante da capacidade humorística dos corretores; o meu, no entanto, permanece ancorado em modo desactivar o acordo que pode dar um certo ar snobe aos meus textos em opiniom da maioria, embora para mim seja modesto tributo persoal aos meus hábitos leitores e à minha devoçom etimológica.

Nom estará de mais lembrarmos, de caminho, que os dígrafos "nh" e "lh", amigos predilectos do reintegracionismo galego, nada tenhem de intrusos adquiridos no mercado irregular top manta fora do controlo da RAG. Sancta Clara Vialha luz já, com Iohane Velho, Velhestro e Ialhas no texto latino dos Factos de Dom Berenguel de Landória, Arcebispo de Santiago1 para designar topónimos e onomásticos galegos correntes nos turbulentos anos de começos do século XIV. Que o arcebispo e os seus escrivaos fossem de procedência occitana para nada conta como argumento diminutivo e, de facto, acrescenta a nobreza do acasalamento das modestas consoantes "n" e "h" com tam nobre estirpe literária europeia.

Os leitores saberám desculpar tortuoso exórdio precedente para entrarmos no consultório filológico de Marco Neves, dedicado esta vez ao tratamento de leitores afligidos por doença ortográfica sobrevinda.

Marco Neves é esse bom amigo circunstancial que nos desvendou secretos inconfessáveis da língua portuguesa, que ele, modestamente, reduziu a doze apenas. O Marcos, ao qual tivemos o prazer de conhecer na EOI de Santiago, por obra e graça do incessante Valentim Fagim, é um reputado mestre linguageiro acreditado em seis especialidades confessadas: as de tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor; além do ofício de paternidade que lhe ocupa o resto do tempo. Calculo que foi na sua qualidade de revisor avezado na que colocou estoutro dia no seu blogue Certas Palavras um descontraído artigo dirigido a consolar os leitores afligidos por doença ortográfica.

No artigo, sob o alarmante título de O Eça traduzido para «brasileiro»?2, o autor passa a examinar o intolerável desleixo ortográfico de Eça de Queiroz e de Machado de Assis que piora ainda no caso de Camões e de Fernão Lopes; depois — talvez desta vez no papel de tradutor — pega num par de textos galegos para exemplificar o atrevimento ortográfico que vigora nesse estranho idioma transminhoto que se empenha em parecer-se ao português desde há séculos. Um dos textos procede dos meus Percursos sem roteiro e o outro de O lápis do carpinteiro de Manuel Rivas, disponível já este em português. Do texto da minha autoria, o Marcos declara sentir o doce na boca da requintada larpeirada bracarense do abade de Priscos nom obstante o saboroso substantivo larpeirada nom constar nos dicionários portugueses. O meu FLIP 10 já me avisara do perigo do seu uso desprecavido: "palavra reconhecida pelo FLIP mas sem definição no dicionário". Agradecim no momento a cortês advertência mas, decidim precindir de iguaria, termo talvez mais do gosto do circunspecto senhor corrector.

O preceito moral que podemos extrair do devaneio ortográfico do professor Neve fica claro: a melhor atitude frente a ortografias exóticas é a toleráncia informada dos efeitos do tempo sobre as línguas e da índole pluricêntrica do português que lhe assegura, aliás, a sua faustosa presença internacional. Para um galego, o preceito implícito poderia ser o de tentar temperar o rigor normativo — agálico, confluente ou decididamente lusitano — com a riqueza desconsiderada da tradiçom escrita e da incessante oralidade; como Valle-Inclán ou Cunqueiro nos ensinárom.

Fronteiras ortográficas, variantes do galego ou do português, neologismos e léxico amortizado pola urgência da escrita jornalística e o formato informático, rugas do tempo onde se esconde a criatividade.

1 Diaz y Diaz et al. (1983): Hechos de Don Berengel de Landoria, arzobispo de Santiago, Universidade de Santiago.

2 http://www.certaspalavras.net/o-eca-traduzido-para-brasileiro/

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1 Comentário

  • João Cabral
    João Cabral Sexta, 24 Agosto 2018 16:59 Link do comentário

    Então mas o autor critica o AO, e depois aplica-o ("afetado")? Não se compreende.

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