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O minério e a ganga no magma lexical galego

O minério e a ganga no magma lexical galego

Carlos Garrido

Os usos lexicais realizados no galego contemporáneo constituem como que um magma que, na sua estrutura caótica, inclui minérios, ou elementos genuínos galego-portugueses —muitos, hoje, entre nós, recessivos ou em vias de extinçom— que persistem, como destroços de um naufrágio, desde o fim da época de normalidade cultural da Galiza (século XV), e, em volta deles, a impregná-los e, em muitos casos, a isolá-los e torná-los inconexos, a obscurecê-los, desvirtuá-los e obliterá-los, umha ingente e abrangente ganga plástica composta por elementos castelhanos ou castelhanizantes, maciça e desordenadamente incorporados ao nosso sistema lexical no quadro da plurissecular subordinaçom sociocultural que, exacerbada nos séculos XX e XXI, o galego tem padecido frente à língua de Castela, por causas políticas, desde o início da idade moderna. Por isso, um programa que aspire a regenerar cabalmente o sistema lexical galego, constituindo-o num código dotado da mesma funcionalidade e coerência que o castelhano, mas autónomo a respeito dele, nom pode senom proceder a umha efetiva e precisa separaçom do minério e da ganga no seio do atual magma lexical galego, preenchendo as lacunas que a extraçom da caótica ganga castelhana —incoerente e incapacitante— ocasiona no sistema mediante umha cuidadosa integraçom de elementos restauradores, os quais deverám revelar-se harmónicos e funcionais.

Chegados a este ponto, devemos constatar que, patentemente, essa destrinça de precisom, que nos usos lexicais do galego contemporáneo deteta elementos castelhanos supérfluos, incoerentes e incapacitantes, e essa criteriosa integraçom de elementos restauradores, hoje só se podem realizar (de forma natural, eficaz e comportavelmente económica) através da coordenaçom galego-portuguesa, tomando como referência e guia segura a constituiçom lexical hodierna das variedades geográficas do galego plenamente estabilizadas, o lusitano e o brasileiro. Para ilustrarmos esta tese, tomemos em consideraçom, a seguir, três exemplos de crassa incoerência interna associada à indevida coexistência, nos usos lexicais do galego contemporáneo (e no dicionário da RAG: v. infra!), de elementos genuínos, originários (o minério!), junto com elementos espúrios castelhanizantes, de incorporaçom tardia (a ganga!).

a).- Fitomarcomoldura e quadro

No galego espontáneo contemporáneo (e em lusitano e em brasileiro!), o verbo fitarsignifica ‘olhar fixamente’ e está relacionado com a voz fito (do latim fictus, particípio passado de figere ‘fixar’), a qual, enquanto adjetivo, denota, principalmente, ‘dirigido fixamente, de atençom concentrada’ (olhar fitoolhos fitos) e, secundariamente, ‘cravado, ereto, imóvel’ (como em orelhas fitas ou pedra fita); além disso, fito, enquanto substantivo, refere o ponto concreto para o qual se olha, o ponto (de mira) a que se dirige o tiro, o alvo que se procura atingir com um lançamento (de modo que fitos som, nalgumhas regions do país, objetos de pau ou metal que se colocam ou espetam no chao como alvos de um jogo de lançamento [de bola ou de chave]). Em ligaçom com a palavra fito, o galego espontáneo contemporáneo (e o lusitano e o brasileiro!) conhece as locuçons a fito, com o valor de ‘sem desviar a atençom’ e de fito a fito (ou a sua variante de fite a fite), com o valor ‘de olhos nos olhos’. Estes som os valores genuínos —avalizados polo atual luso-brasileiro— do vocábulo galego fito, presentes no galego espontáneo contemporáneo, mas, para a habilitaçom de um galego verdadeiramente culto (extenso e útil), e de harmonia com as modalidades lingüísticas de cultura próximas do galego, será conveniente e necessário ampliarmos esses valores da voz fitoprimários, mediante a incorporaçom de um valor mais moderno, derivado e metafórico, que o galego, por culpa da sua história clínica, nom tivo oportunidade de adquirir. Esse valor moderno e culto de fito, que o galego deve agora incorporar, é, naturalmente, o que a voz galega fito adquiriu, na altura certa, por evoluçom semántica reta, em luso-brasileiro, ou seja, ‘fim que se deseja alcançar, objetivo que se aspira a atingir’, como em "O seu fito é ler inteira a Enciclopédia Británica".

Observe-se, assim, que a referência do léxico luso-brasileiro (palavra fito) nos facilita muito a identificaçom como castelhanismo semántico indevido do uso do substantivo galego fito com o significado que o seu cognado hito tem em castelhano de ‘pedra oblonga cravada no chao para delimitar um terreio ou para indicar direçom ou distáncia num caminho’, valor semántico, este, que em galego genuíno (como em lusitano e em brasileiro!) se exprime com a muito popular voz marco. Por isso, o galego tamém nom pode utilizar a voz fito quando o castelhano emprega a voz hito, num uso metafórico derivado do sentido que se acabou de aduzir, com o valor de ‘acontecimento histórico fundamental’ (ex.: "El descubrimiento de la estructura del ADN representa un hito de la biología".). Entom, que voz se deve empregar em galego, num uso metafórico, com o significado de ‘acontecimento histórico fundamental’? Naturalmente, e de harmonia com o luso-brasileiro, marco (cf. ingl. landmarkmilestone; al. Meilenstein)!

Com efeito, se em castelhano a ‘pedra oblonga cravada no chao para delimitar um terreio ou para indicar direçom ou distáncia num caminho’ se denomina hito (ou mojón), em galego, como em lusitano e em brasileiro, tal objeto chama-se marco(ex.: "Movêrom-lhe de noite os marcos da leira!"; cf. marco miliáriomarco quilométrico), de modo que o valor moderno (e metafórico e culto) de marco que cumpre incorporar ao galego é ‘acontecimento histórico fundamental’ (ex.: "A descoberta da estrutura do ADN constitui um marco da biologia".) [1], e nom o significado que marco tem em castelhano (‘peça, freqüentemente de madeira, que guarnece e adorna retratos, espelhos, etc.’), o qual, claramente, se revela incompatível com o uso genuíno de marco em galego (cf. dito popular "De marco a marco nom hai arco"!).

Entom, como se deve denotar, em galego genuíno, a peça ornamental (o caixilho) que rodeia um retrato ou um espelho ou umha lousa (da escola)? Como sempre, é o luso-brasileiro —o qual usa a palavra galega marco com o seu significado genuíno de ‘marco’— que nos dá a resposta certa (neste caso, respostas): moldura ou quadro. Por isso, quando, num sentido metafórico, o castelhano utiliza a expressom en el marco de (ex.: "en el marco de este congreso"), ou, por exemplo, o inglês within the framework of e o alemám im Rahmen von, o galego, de harmonia com o luso-brasileiro, pode e deve utilizar a locuçom no quadro de («no quadro deste congresso»).

b).- Mancomaneta

Em galego, e em lusitano e em brasileiro, o verbo mancar(-se), que é de uso freqüente no atual galego espontáneo, significa ‘causar ou sofrer dano físico em qualquer parte do corpo (tornando-se, portanto, manco)’, um uso vocabular que, embora tamém registado polo dicionário da Real Academia Espanhola, nom é hoje corrente em castelhano (polo menos, de Espanha!) e parece colidir com o valor semántico que o adjetivo e substantivo manco -a tem em genuíno castelhano: (pessoa) que perdeu um braço ou umha mao, ou a respetiva funcionalidade. Em contraste com este uso castelhano, e na linha do apontado, no galego contemporáneo existe, por exemplo, o dito popular "Cada um sabe bem onde lhe manca o sapato" e di-se habitualmente, por exemplo, que um, ou umha, futebolista "se manca" e, entom, é, sobretodo, no pé ou na perna que ele ou ela se lesiona ou magoa.

Assim, em galego genuíno, por coerência semántica, nom cabe senom esperarmos que o adjetivo e substantivo conexo manco -a, aplicado a umha pessoa, signifique (como toco -a) que ela perdeu, ou que tem danificada, a extremidade de um membro do corpo, quer seja o membro superior ou o membro inferior, e este é, de facto, o valor geral da voz manco -a nas variedades socialmente estabilizadas do galego, o lusitano e o brasileiro, as quais, mais umha vez, aqui nos proporcionam umha referência de vernaculidade [2].

Por conseguinte, os usos em galego de manco -a com um significado exclusivamente focalizado no membro superior nom podem senom qualificar-se de abusivamente castelhanizantes, tanto mais que o galego contemporáneo, como o lusitano e o brasileiro, já dispom da voz maneta para denotar especificamente, na língua corrente, a pessoa que perdeu a extremidade de um braço ou que a tem danificada. Deste modo, em galego genuíno, como em luso-brasileiro, Miguel de Cervantes, sem deixar de ter sido manco, de forma mais precisa pode e deve ser alcunhado de Maneta de Lepanto.

c).- Pombopomba

Até aos dias de hoje, no meio rural galego, os columbídeos silvestres autóctones de grande tamanho som chamados de modo genérico, com independência do seu sexo, pombos, voz de género masculino que se refere em concreto à espécie Columba palumbus, cujo nome vernáculo completo é pombo-torcaz (o elemento torcaz deriva de torque, em alusom ao "colar" ou faixa branca e verde que estas aves mostram no pescoço). Este uso popular, espontáneo, da voz pombo para denotar a espécie Columba palumbus testemunha que, em galego genuíno, para a designaçom geral dos columbídeos, é o masculino o género nom marcado, preferente, portanto, para formar a denominaçom vernácula das diversas espécies do grupo e apto para denotar tanto indivíduos masculinos como femininos, de modo que a correspondente forma feminina (pomba) terá um uso mais restrito, especializado, em geral, na designaçom de pombos-fêmeas. Este é tamém, por sinal, o esquema designativo do lusitano e do brasileiro, o que confirma a priorizaçom galego-portuguesa da forma masculina pombo, em contraste com a clara preferência pola correspondente forma feminina em castelhano, língua em que paloma (paloma torcaz, p. ex.) funciona como denominaçom geral dos columbídeos e para a designaçom dos dous sexos (frente a palomo, que apenas designa machos).

Por conseguinte, nom caberá considerarmos senom como nom genuíno e castelhanizante o uso preferente ou exclusivo em galego, por indevida imitaçom do castelhano paloma, da forma feminina pomba para designar de modo genérico os nossos pombos urbanos [3] ou as diferentes espécies (exóticas) de columbídeos de grande tamanho, ou para integrar neologismos como *pomba mensageira, forma, esta, decalcada do castelhano paloma mensajera, que, como vimos, se revela incoerente na nossa língua, e que contrasta com a congenial soluçom luso-brasileira pombo-correio, perfeitamente harmónica em galego.

Mineiros diligentes e mineiros negligentes na eliminaçom da ganga

Visto que, para a constituiçom de um léxico galego genuíno e coerente, se revela hoje indispensável efetuarmos, no seio do atual magma lexical galego, umha discriminaçom entre o minério, que cabe retermos e valorizarmos, e a ganga, que cumpre excluirmos, podemos interrogar-nos, agora, acerca da eficácia com que, a esse respeito, procedem os diferentes agentes codificadores ou orientadores do léxico galego. Focalizando aqui a nossa atençom nos três exemplos vocabulares tratados acima e em três repositórios lexicais editados na Galiza —O Modelo Lexical Galego (= MLG), da Comissom Lingüística da Associaçom de Estudos Galegos (sucessora da CL-AGAL), o dicionário eletrónico de Isaac A. Estraviz (= Estraviz-e) e a última ediçom do dicionário da Real Academia Galega (= DRAG) [4]—, chegamos às seguintes conclusons.

Dos três repositórios lexicais referidos, apenas o MLG, reintegracionista, que aplica de modo constante, e com rigor, a coordenaçom lexical galego-portuguesa, consegue segregar nos três casos tratados acima (fito/marco/quadromanco/maneta e pombo/pomba) a ganga do minério, se bem que, como corresponde à peculiar estrutura desta obra, a sua prescriçom vocabular seja implícita, nom explícita; por sua vez, o tamém reintegracionista Estraviz-e consegue separar a ganga do minério nos casos de manco/maneta e pombo/pomba, mas nom assim no caso de fito/marco/quadro, pois, no verbete “marco”, inclui a aceçom castelhanizante ‘moldura’ e nom incorpora o valor metafórico de ‘acontecimento histórico fundamental’, enquanto no verbete “fito” inclui a castelhanizante aceçom (nom metafórica) ‘marco’, circunstáncias que, com certeza, devem interpretar-se como lapso ou «cedência», antes do que como desvio propositado do ideal de regeneraçom lexical aqui preconizado.

Já quanto ao DRAG, as conclusons som, infelizmente, muito diferentes. Esta obra, que, incompreensivelmente, ainda despreza, em geral, a coordenaçom lexical galego-portuguesa, incorpora as aceçons castelhanizantes de fito e marco antes vistas (tanto as primárias nom genuínas como as metafóricas incoerentes), restringe —numha clara mostra de limitaçom ruralista!— a extensom semántica de pombo à espécie autóctone silvestre Columba palumbus (o pombo-torcaz), consagrando, assim, de modo incoerente e castelhanizante, a forma pomba como denominaçom genérica e nom marcada (com o neologismo castelhano *pomba mensaxeira), e, enfim, declara, noutra crassa incoerência castelhanizante, que manco -a designa apenas a pessoa privada de mao ou braço (e isso depois de no verbete “mancar” ter incluído o significativo exemplo "Os zapatos novos máncanme"!). Por conseguinte, os dicionaristas da RAG, com esta atitude de mineiros negligentes que desistem de eliminar a ganga do veio, estám, tristemente, a desvirtuar e desvalorizar o nosso minério vocabular, a partir do qual, mediante o pertinente beneficiamento, sabemos, porém, que podemos obter um precioso metal: o léxico genuíno e coerente, extenso e útil, galego-português.

Notas

1.- O galego, de harmonia com o luso-brasileiro, tamém deve incorporar outros usos modernos de marco, como marco do correio (ou marco postal), que denota o elemento da mobília urbana em forma de recetáculo cilíndrico destinado à coleta de cartas para o serviço postal.

2.- No entanto, a partir desse significado geral, em lusitano e em brasileiro o adjetivo e substantivo manco -a especializou-se para denotar, especificamente, o facto de se ter danificada a extremidade inferior, como sinónimo (aproximado) de coxo -a (mas com o possível matiz diferencial de a condiçom de manco -a ser transitória, ou menos grave, frente à permanente e mais incapacitante de coxo -a).

3.- De facto, muitos dos galegos que no ambiente rural e silvestre (cinegético) falam de pombos (em referência aos torcazes), para se referirem aos pombos urbanos já utilizam o castelhanismo puro paloma, por ser o castelhano a língua ambiental predominante nas cidades galegas.

4.- Pode aceder-se (gratuitamente) a estes três repositórios lexicais através da internet.

Última modificação emSegunda, 02 Julho 2018 08:17
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