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De identidades sub-rogadas

De identidades sub-rogadas

Joám Lopes Facal

Divagávamos estoutro dia sobre ictiófilos — profetas de utopias — e peixes voadores, esses filhos do oceano prestes sempre a conjurar a ameaça extrema mediante um salto sem garantias ao impossível. Duas belas metáforas que devemos à leitura irónica de John Gray de um agudo pensamento de Alexander Herzen.

Em retrospectiva, devemos reconhecer que o par dialéctico, ictiófilopeixe voador, perdeu muito do seu gume crítico em tempos tam prosaicos como os que agora vivemos onde o grande relato sucumbe ante a mensagem fugaz, falaz e individualista. Pós-modernidade, pensamento líquido, saturaçom informativa temperada com embustes auto-replicantes, autismo narcisista, hedonismo solipsista: algarismos todos de umha época que descrê do futuro e foge do presente.

A mudança que me foi dado experimentar desde os meus anos académicos até o momento corre veloz desde o relato épico do futuro esperado á sua irónica cancelaçom. Nengum resumo melhor da inquietante mudança de paradigma que umha engraçada finta conceitual que transmuta a heróica divisa ultrapassada em gastronómica piada actual. Quando novos, era frequente falarmos em revoluçom e “loita armada” hoje, na rua compostelana do Pombal, podemos desfrutar dum bar amigo, metade espaço de relaxada comedela, metade de colóquio intelectual que um helénico nom duvidaria de qualificar de symposium. O bar a que aludimos foi baptizado como A troita armada. Insuperável ironia antiépica. A nossa juventude fervilhava de ictiófilos, hoje, dou ao demo se algum queda. Dos hirtos preceitos apocalípticos ao amável desencanto dos integrados.

Onde é que se refugiam hoje os irredutíveis temperamentos apocalípticos? Umha hipótese provisória poderia ser que achárom refúgio suficiente no acampamento base da identidade sub-rogada. Visto ser socialmente inverosímil o futuro perfeito, sempre é possível optar polo tempo conjuntivo ou, melhor ainda, aposentar-se num espaço virtual sub-rogado onde floresça imarcescível a flor das aspiraçons ceifadas pola fouce do tempo.

O limitado grémio da cidadania informada e comprometida com o presente e o futuro do país, nós mesmos sem ir mais longe, vemo-nos confrontados acotio com o ruído branco que refuta as nossas aspiraçons: o avanço da consciência de soberania da naçom extraviada nos becos da história, a recuperaçom da plenitude do idioma herdado contra o veredicto de obsolescência acelerada e irreleváncia social.

O quê fazer quando o programa vira em tarefa árdua, talvez impossível? Quando Penélope consome os dias sem avançar...Um passo adiante e outro atrás, Galiza, e a teia dos teus sonhos nom se move...?

Albert Hirschman (1915-2012), esse pensador contra os princípios da económica apologética, propom em Saída, Voz e Lealdade três vias de escape para as aspiraçons frustradas: abandono, alçamento da voz e inibiçom na lealdade passiva. As três proliferam misturadas nestes tempos de refluxo em que a esperança se evapora ante o muro da incompreensom e o cansaço. Três receitas racionais para o esforço inútil. Contodo, há sempre outra saída: a que aponta para espaços ilusórios capazes de transfigurar a frustraçom em refúgio acolhedor. Conhecim na mocidade montes de devotos de um Moscovo ideal transmutados hoje em vizinhos de um impossível Hollywood ou Nova Iorque sonhado.

Sub-rogar (assumir o lugar de outrem, tomar para si, informa-nos o Houaiss) é unha acçom incomum que pode servir de remédio transitório. Perto de nós, agora mesmo, nom é difícil observar o abrolhar dum viçoso grémio catalanófilo empenhado em absolver a aventura segregacionista de toda culpa ou erro, tanto na sua tortuosa génese como nas ominosas consequências que se seguem. É um exemplo sobranceiro de identidade sub-rogada, capaz de obnubilar o bom juízo até o ponto de confundir projecto e aventura. A enchente e devalo do independentismo basco armado deveria ter convidado à reflexom e desconfiança de relatos épicos sub-rogados. Ao certo, o único relato em que podemos acreditar é o escrito por mao própria, mesmo que seja com linhas tortas.

A pulsom sub-rogatória da própria identidade conseguiu contaminar também o grémio reintegracionista, afligido de nascimento de indiferença social e hostilidade institucional. Manter a moral de resistência em circunstáncias adversas nom é labor doado e a fugida a geografias imaginárias mais hospitaleiras é umha compreensível diversom. Expedientes individuais de exílio voluntário por recenseamento na cidadania portuguesa ou protectoras decisons paternais de escolarizar a descendência na vila portuguesa mais próxima som movimentos sintomáticos que a europeidade partilhada propicia mas dificilmente generalizáveis. Por falar nisso, nom conseguimos seguir o trilho que conduz da conflituosa morada do idioma maltratado às maravilhosas Ilhas Afortunadas do arquipélago lusista de nunca jamais: ... terras sem ter lugar, onde o Rei mora esperando, mas, se vamos despertando, cala a voz e há só mar. AGLP onte, AGAL hoje empreendérom essa aventura na nau da ortografia áurea no primeiro caso e da im-possível confluência normativa no segundo.

O programa pendente de reabilitaçom e dignificaçom do idioma herdado que animou geraçons e presidiu o impulso fundacional reintegracionista, foi incurso em ordem de despejo por insolvência interiorizada e substituído por um flamante português de escola e escrivania. Idioma pujante este, mundano e cosmopolita, sem cicatrizes, finalmente competitivo, caso aceitemos mensurar a mais alta criaçom do país com critérios estritamente economicistas.

Admiramos a vitalidade da cultura catalã lavrada por geraçons de cidadaos comprometidos com a sua continuidade e sobrevivência, deambulamos a vontade polo cosmopolita hiperespaço cultural do português, heterogéneo e variado, mas nom podemos concordar com a tentaçom da olhada extraterritorial que só pode levar a encalhar o projecto de regeneraçom na exacerbaçom do sentido do próprio frente ao alheio. O nosso compromisso nom pode ser outro que o susceptível de ser acolhido como próprio. A ética que vindicamos é a da resistência, activa e resoluta. Sem vãs esperanças. Como sempre foi.

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