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'Reboquismo e dialética', o regresso do Lukács dos anos 20

'Reboquismo e dialética', o regresso do Lukács dos anos 20

Maurício Castro

György Lukács
Reboquismo e dialética. Uma resposta aos críticos de História e consciência de classe
Boitempo Editorial. São Paulo, 2015.

rebPermita-se-me iniciar esta pequena resenha com umha reflexom prévia em torno da utilidade que a reintegraçom do galego no seu ámbito histórico-lingüístico tem para nos dar de maneira direta e concreta.

György Lukács é tido por um dos maiores filósofos do século XX, apesar da sua condiçom de comunista que se mantivo toda a vida do outro lado da Cortina de Ferro. Contodo, a sua obra é pouco conhecida na Galiza, devido precisamente ao carácter subsidiário do nosso mundo cultural em relaçom ao espanhol. De facto, a maior parte da obra do grande autor húngaro, nascido em Budapeste em 1885 e morto nessa mesma cidade em 1971, está longe de ter traduçons disponíveis em espanhol.

A que para muitos é sua principal obra, Para uma ontologia do ser social, foi traduzida só para umhas poucas línguas do mundo, entre as quais a nossa, em ediçom brasileira da Boitempo Editorial. Som, ao todo, quase 2.000 páginas (duas mil!), incluindo os chamados Prolegómenos, que só podem ser lidos em línguas como o alemám, o inglês, o japonês e o italiano, além do galego-português.

Queremos, com este exemplo significativo, sublinhar a importáncia de umha orientaçom adequada da nossa vida lingüística-cultural, que permitiria que qualquer galega ou galego acedesse a um vastíssimo tesouro cultural formado polas produçons editoriais dos mundos hispano e galego-luso-brasileiro. Claro que, para isso, seria preciso nom só passarmos a ensinar e aprender galego na sua forma escrita histórico-etimológica ou reintegracionista, mas também estabelecer os relacionamentos normalizados com Portugal e Brasil, que permitissem fazer circular com facilidade todo esse património.

Na atualidade, isso nom acontece. Nem o galego é maioritariamente adaptado à escrita substancialmente comum do nosso mundo cultural, nem as instituiçons galegas mostram interesse nesses relacionamentos que tanto enriqueceriam o nosso povo. Daí que a obra que nesta ocasiom comentamos, sendo, no caso das línguas peninsulares, só acessível em galego do Brasil ou em castelhano da Argentina, fica difícil de consultar, a nom ser mediante a encomenda ao gigante sul-americano.

Na verdade, a obra mais conhecida de Lukács entre nós é História e conscência de classe, provavelmente por ter sido traduzida para espanhol já desde 1969 em ediçom mexicana, com algumha circulaçom no Estado espanhol, e mais tarde em Barcelona no ano 75. Também o conteúdo original e inovador no campo do marxismo (escrita e publicada em 1923) a converteu num referente teórico na recuperaçom das raízes dialéticas do marxismo contra a degeneraçom positivista protagonizada naqueles anos por teóricos da II Internacional, como o velho Karl Kautsky, e por alguns teóricos do bolxevismo, como Nikolai Bukharine.

A reivindicaçom do papel da subjetividade revolucionária e a crítica ao materialismo naturalista coincide com uns anos de ascenso revolucionário (o próprio Lukács participou da revoluçom conselhista húngara de 1919, que durante uns meses tomou o poder até ser derrotada pola reaçom).

Frente ao economicismo de raiz natural-cientifista que irá também tomando conta da linha oficial soviética nos anos seguintes, coincidindo com o fim do ascenso revolucionário, Lukács revindica ainda o caráter social e a totalidade como “território da dialética”, reduzindo o papel da ortodoxia marxista à assunçom do método dialético como exigência.

A receçom de História e consciência de classe por parte da ortodoxia soviética foi muito negativa, sendo acusada de “subjetivista” e “revisionista” por dirigentes soviéticos como Grigori Zinoviev e já referido Nikolai Bukharine, assi como polo filósofo soviético Abraám Deborin e o húngaro László Rudas.

Para dizer a verdade, o próprio György Lukács irá renegar a partir dos anos 30 da sua obra mais conhecida, tal como Michael Löwy explica no prólogo do volume que resenhamos, devido ao seu pendor “idealista” na avaliaçom da “consciência” ou “subjetividade” revolucionária, segundo as suas próprias palavras. No entanto, durante décadas, ficou no esquecimento a existência deste texto de resposta aos seus críticos da sua obra de 23. Só no fim da URSS, o acesso aos arquivos da Comintern em Moscovo permitiu conhecer este Reboquismo e dialética, em que Lukacs se defende dos ataques de Rudas e Deborin.

Agora sabemos que Lukács tentou publicar essa resposta depois desses ataques em publicaçons da Comintern, em 1924. Referimo-nos à obrinha (polo seu tamanho reduzido) que comentamos, muito significativa na trajetória do filósofo húngaro, e que acabaria por ficar “perdida” sem chegar a ser publicada em vida de Lukács.

A consciência de classe, a teoria do partido e a dialética da natureza som os principais temas abordados neste ensaio de resposta, que reafirma a importáncia da subjetividade na dialética do andamento histórico dos processos revolucionários. Daí partirá o título, que inclui um neologismo habilitado em galego-português como derivaçom do substantivo “reboque”: reboquismo seria qualquer cousa como o seguidismo ou a dependência em relaçom à marcha objetiva da história, com total prioridade sobre umha eventual intervençom consciente do sujeito. Lukács enfrenta assi o positivismo determinista de matriz kautskiana, que terá ampla difusom em nome do marxismo ao longo do século XX, ao ponto de chegar a popularizar-se a identificaçom entre marxismo e determinismo histórico.

Que já na década de 20 detetasse essa deturpaçom e se reivindicasse a dialética e a importáncia da intervençom consciente no curso da história, fai de Lukács um representante da recuperaçom da autenticidade do pensamento marxiano, frente às diversas deformaçons subordinadas à chamada ideologia do progresso.

Em definitivo, este livrinho, descoberto e publicado nos anos 90 e agora traduzido para a nossa língua, apresenta-se como mais um contributo, tam antigo como atual, para o combate à esclerotizaçom sofrida polo potencial analítico e transformador da obra de Karl Marx. Umha obrinha escrita há uns 90 anos por um dos grandes filósofos do século XX, fiel durante a sua longa vida ao estudo e divulgaçom da teoria revolucionária nom só no campo estritamente filosófico, mas também na teoria literária e na estética.

Ainda crítico explícito das limitaçons das experiências socialistas do leste da Europa, umha sentença de György Lukács ficou para a história como definitória da sua atitude perante o confronto entre os dous mundos: “O pior socialismo é preferível ao melhor capitalismo".

Maurício Castro. Galiza, dezembro de 2017. Publicado como recensom no nº 3 da Kallaikia, revista de estudos galegos.

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