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Porque recuperar Lenine em 2016?

Porque recuperar Lenine em 2016?

Maurício Castro

Estamos, talvez, diante da primeira ediçom mundial comemorativa dos 100 anos de umha das principais obras do grande teórico e prático da revoluçom socialista. Nom que nom existissem ediçons na nossa língua (havia várias portuguesas, brasileiras e mesmo umha galega de 2004, publicada num volume intitulado Socialismo e independência, junto a outros muitos trabalhos do autor (Compostela, Abrente Editora).

Porém, correspondeu ao Diário Liberdade, site informativo de ámbito galego-luso-brasileiro, a honra de apresentar esta cuidada ediçom ilustrada por quem escreve estas linhas. Para além do aspeto estético, o assunto de fundo é o interesse que um ensaio divulgativo sobre economia e política situado em 1916, em plena I Guerra Mundial, pode manter em pleno 2016.

Porém, a dúvida fica logo resolvida se tivermos em conta a plena vigência do essêncial da descriçom com que o autor, Vladímir Ilitch, populariza a caraterizaçom do capitalismo, como fase culminante do capitalismo, e que a seguir vamos resumir muito esquematicamente.

Para já, estamos diante de umha obra em que se afirma com total firmeza e razom que, em 1916, já existe umha economia mundial. Isso, que alguns propagandistas da “globalizaçom” propagárom nas últimas décadas como sendo umha novidade do nosso tempo, é na verdade um facto com mais de um século de vigência, como Lenine nos mostra nesta obra.

A partir daí, o autor descreve em cinco traços fundamentais a natureza económica –e nom só política— que definem o imperialismo como nova fase do capitalismo, de dimensom mundial:

1. A concentraçom da produçom e do capital, hegemonizada por monopólios que nom anulam a concorrência consubstancial à Lei do valor capitalista, mas que a situam num patamar superior, muito acima dos espaços nacionais e do livrecambismo oitocentista.

2. A fusom entre o capital bancário e o industrial, com predomínio do primeiro, como mecanismo imprescindível para o impulso da acumulaçom de capital que exige o processo reproduçom alargada do mesmo, já descrito por Karl Marx.

3. A exportaçom de capitais, e nom simplesmente de mercadorias como até aí acontecia, e que abre umha dialética entre centro e periferia mais complexa do que aquela vigente em tempos do “puro e simples” colonialismo.

4. A repartiçom do mundo entre as grandes potências, com predomínio monopolístico e financeiro por parte das mesmas.

5. A culminaçom desse processo de repartiçom, que nom implica o final do mesmo, ao continuar a funcionar a concorrência e nom se atingir um único monopólio por parte de umha única potência mundial. A partir daí, sucedem-se as disputas e reordenamentos do panorama mundial de disputa entre os capitais.

Essa caraterizaçom do fenómeno imperialista tem servido de quadro de discussom sobre a sua correçom, revisom ou contestaçom, mas parece clara a sua utilidade na hora de compreendermos nom só a situaçom do mundo em 1916, mas a atual. Nom que nom tenham acontecido importantes mudanças no desenvolvimento capitalista nestes 100 anos transcorridos, mas a natureza da “fase superior capitalista” tem indubitáveis traços comuns que permitem afirmar que continuamos nessa mesma fase do desenvolvimento histórico capitalista.

Assim, a concentraçom produtiva e o sucessivo surgimento de monopólios que se enfrentam no cenário internacional aparece hoje como umha realidade diante dos nossos olhos. Isso nom anula a concorrência nem derivou, ao invés das previsons de Karl Kautsky, para um “ultraimperialismo” com um único monopólio e umha progressiva ascensom do socialismo por via parlamentar para tomar conta do processo de maneira pacífica.

O predomínio parasitário-financeiro aparece claramente como caraterizador da economia mundial, o que tampouco anula a evidência de ser o capital industrial o sustento material do processo de acumulaçom, mas pom em maos do capital financeiro mecanismos que, como a dívida, tenhem possibilitado alavancar esse processo constante de acumulaçom mundial durante o último século, se bem com cada vez maiores dificuldades, como vemos em crises tam profundas como a atual.

Nom é preciso assinalar a importáncia que na economia mundial atual atingiu a exportaçom de capitais como via de expansom capitalista, ligada com a contradiçom centro-periferia que correntes como a teoria marxista da dependência tenhem analisado desde a década de 60-70.

Quanto à repartiçom do mundo em áreas de influência, recursos energéticos e outras forças produtivas em disputa, basta verificar a persistência da guerra como mecanismo de confronto, pilhagem e concorrência extrema entre estados como representantes dos diferentes capitais em disputa. Porém, cabe salientar como, ao invés do que sucedia em 1916, os conflitos bélicos tenhem alastrado para as periferias, embora nos últimos anos a própria Europa volte a ser palco de guerras, a mais recente na Ucránia.

Em definitivo, e para além de aspetos que puderem ser questionados, a teoria do imperialismo proposta por Lenine mantém umha substancial utilidade na hora de compreender o que aos nossos olhos aparece como processo caótico de confrontos disfarçados de aparência cultural, religiosa ou puramente política.

Da mesma forma, a exposiçom que Lenine fai no Imperialismo, fase superior do capitalismo, sobre a crescente socializaçom produtiva que as grandes economias implicam, leva o autor russo a concluir que essa dinámica interna do próprio capitalismo aproxima esse modo de produçom dos seus próprios limites históricos. Daí que apele à necessidade de integrar as luitas anti-imperialistas como umha nova componente da luita revolucionária que complete a superaçom desse sistema mundial, mediante a socializaçom da propriedade.

A obra que comentamos, publicada como folheto e dirigida à formaçom dos magros contingentes revolucionários que resistírom à capitulaçom das direçons nacionais da II Internacional em 1914, inclui outras categorias úteis e vigentes na atualidade. Referimo-nos à de “aristocracia operária”, apontada já por Marx e Engels para se referirem ao aproveitamento indireto que as camadas superiores do proletariado inglês tiravam da exploraçom colonial da Índia e mesmo da Irlanda. Em 1916, Lenine expom a categorizaçom dessa aristocracia cooptada pola burguesia como obstáculo para o avanço da estratégia revolucionária no seio das organizaçons de classe.

Parece evidente estarmos diante de mais um aspeto em que esta “obrinha” mantém algumha vigência para nós, vista a degeneraçom generalizada das direçons das esquerdas, especialmente nos centros do capitalismo mundial (mas nom só). E escrevemos “obrinha” assim, entre aspas, porque por trás do que nom passou de um folheto (181 páginas na ediçom galega do centenário), tem por trás dous anos de estudos profundos da questom por parte do autor. O testemunho desse processo está hoje disponível nos chamados “Cadernos sobre o imperialismo”, com mais de 800 páginas de estudos que dariam como resultado o livro que aqui comentamos e que, mais ainda por fazermos parte de um povo dependente como a Galiza, ferventemente recomendamos.

Maurício Castro. Galiza, outubro de 2016. Publicado como recensom no nº 1 da Kallaikia, revista de estudos galegos.

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