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Os «bolxeviques» e o reintegracionismo nom comunicativo

Os «bolxeviques» e o reintegracionismo nom comunicativo

Carlos Garrido

Na teoria da traduçom, di-se que umha traduçom é comunicativa quando o texto de chegada, sem trair no essencial os conteúdos originais, e com independência de quais forem a forma e os significados do texto de partida, apresenta forma e significados adaptados aos conhecimentos, convençons, necessidades e expetativas da comunidade sociocultural de chegada, condiçom, esta, indispensável para se garantir, na prática, umha receçom eficaz, sem atrito, na comunidade de chegada da mensagem de qualquer texto de partida pragmático. Nesta linha, qual das duas variantes do reintegracionismo lingüístico galego-português que hoje concorrem na Galiza, o reintegracionismo de padrom galego e o reintegracionismo de padrom lusitano, é a mais comunicativa?

Umha tal questom revela-se pertinente porquanto o reintegracionismo apresenta, em parte, o caráter de umha importaçom cultural, o que tamém podemos designar por faceta injetiva. Esta faceta injetiva do reintegracionismo, concomitante com a divulgaçom por ele realizada na Galiza, entre os galegos, da noçom —verdadeira, sem dúvida!— de o galego constituir umhas das variedades do galego-português —língua de cultura de difusom internacional—, consiste em promover a formalizaçom dos usos do galego de modo convergente com os das suas variedades normalizadas (sobretodo, com o lusitano, a variedade mais próxima), processo eficazmente fomentado através de umha receçom habitual de produtos culturais veiculados nas outras variedades (normalizadas) do galego-português e que acarreta umha eficaz restauraçom estrutural e funcional do galego e umha decisiva potenciaçom dos seus usos no seio da sociedade galega.

A outra face da medalha é o caráter projetivo do reintegracionismo, ou seja, a sua potenciaçom da difusom dos produtos culturais galegos em toda a Galaicofonia ou Lusofonia. Se parece fora de discussom que, polo que di respeito à faceta projetiva, o reintegracionismo de padrom galego (ex.: Gz. «O jantar é a refeiçom do meio-dia» [Pt.+Br.: almoço, refeição]) se encontra em inferioridade frente ao de padrom lusitano, quer na sua versom suave, em que a convergência total se restringe aos aspetos morfográficos e morfológicos (Gz. «O jantar é a refeição do meio-dia» [Pt.+Br.: almoço, refeição]), quer na sua versom dura, com convergência total tamém no léxico (Gz. «O almoço é a refeição do meio-dia» [Pt.+Br.: almoço, refeição]), porém, nom convém exagerarmos tal superioridade projetiva, dada, por um lado, a existência de divergências de todo o tipo entre os padrons de Portugal e do Brasil (ex.: Pt. «o seu pequeno-almoço» / Br. «seu café da manhã») e, por outro lado, a circunstáncia de o emergente padrom galego reintegracionista diferir, globalmente, pouco do brasileiro e, menos ainda, do lusitano (especialmente, em textos formais).

Bem assente, portanto, a superioridade projetiva —nom exorbitante, em qualquer caso— da praxe reintegracionista de padrom lusitano, agora tamém devemos constatar a sua inferioridade —e esta, bem acentuada, bem patente— frente ao reintegracionismo de padrom galego polo que tange à faceta injetiva. A este respeito, e frente a tanta mistificaçom como tem imperado nos últimos anos no seio do movimento reintegracionista, é preciso salientarmos aqui o caráter marcadamente nom comunicativo do reintegracionismo de padrom lusitano no seu meio natural, ou seja, na comunidade sociocultural galega, entre os galegos contemporáneos. Para evidenciarmos essa falta de comunicatividade, esse défice de adaptaçom aos conhecimentos, convençons, necessidades e expetativas (v. supra) dos galegos, bastará referirmo-nos a aqueles lídimos aspetos morfográficos, morfológicos e lexicais do galego que, com efeitos estranhadores e disfuncionais, som sacrificados na praxe dessa variante do reintegracionismo, injustificados sacrifícios que, por sinal, tem consignado a Comissom Lingüística em diversos documentos (lembremos aqui o seu eloqüente exemplo «A julgarmos pelo/polo som [o], são [o] São [a] Pedro e São [a] Paulo» e casos como «eu comi», por «eu comim» [Gz], «comeram» por «comêrom» [Gz] e jantar, por ceia [Gz], ou cágado por sapo-concho [Gz]). A essas genuínas particularidades galegas suplantadas, em benefício do efeito projetivo, polo reintegracionismo de padrom lusitano, queria acrescentar aqui um caso curioso, de pequeno vulto mas de grande significaçom, com que me deparei há pouco tempo e que testemunha berrantemente a falta de comunicatividade galega dessa estratégia.

Em lusitano e em brasileiro escreve-se bolchevique (que é umha voz de instauraçom relativamente recente e de caráter «enciclopédico») porque esse vocábulo provém, mediante transliteraçom/transcriçom, de umha palavra russa (escrita em alfabeto cirílico) cuja segunda sílaba começa polo fonema /∫/ (o consonántico de eixo), e dado que, nos padrons lusitano e brasileiro, o dígrafo ch representa univocamente o fonema /∫/. Pola mesma razom, esse russismo é escrito em inglês bolshevik (sh = /∫/), em alemám Bolschewik (sch = /∫/), em catalám bolxevic (x = /∫/), em italiano bolscevico (sc = /∫/), em romeno bolşevic (ş =/∫/) e em francês —que influiu na transliteraçom luso-brasileira— bolchevique (ch = /∫/). Ora bem, como devemos grafar em galego, na Galiza, essa palavra de origem russa? Nom podemos fazê-lo como se fai em lusitano e em brasileiro, porque, entom, em galego, alteramos, gratuitamente, a realizaçom fónica original, umha vez que o dígrafo ch, em galego, tem o valor /t∫/, e nom /∫/; portanto, a transliteraçom/transcriçom coerente, correta, na variedade galega do galego-português, é bolxevique (cf. Pt. champô / Br. xampu). Por isso, quando vim o título Bolcheviques numha coletánea de ensaios reintegracionista editada recentemente pola Através Editora (a qual, ruturista com a tradiçom histórica da AGAL, agora menoriza o padrom galego), e o título Bolxeviques num volume homólogo isolacionista, nom pudem evitar sentir um arrepio: pola primeira vez na minha vida —honestidade intelectual obriga!—, eu aqui alinhava com umha soluçom lexical utilizada polo isolacionismo, em detrimento da usada por reintegracionistas! Mas acontece que, neste caso, por umha falsa fidelidade (gráfica) ao luso-brasileiro, e de harmonia com os castelhanos (que nom tenhem o fonema /∫/), o reintegracionismo de padrom lusitano hoje maioritário na AGAL torna aqui o galego na única modalidade lingüística de cultura do nosso quadro europeu que, dispondo do fonema /∫/ presente na voz russa de que deriva bolxevique, aí utiliza, na prática, um fonema diferente, o impertinente /t∫/!

Neste contexto, pois, a importante questom que se nos suscita é: para a assunçom da unidade lingüística galego-portuguesa, para a plena restauraçom estrutural e funcional do galego e para a potenciaçom e normalizaçom dos seus usos no seio da sociedade galega atual, ou seja, para atingir os objetivos fundamentais do reintegracionismo histórico, será porventura mais eficaz, graças à sua superioridade projetiva, o reintegracionismo de padrom lusitano que o de padrom galego? (E nom estamos a referir-nos aqui a usos ocasionais do padrom lusitano ou brasileiro por parte de galegos, mas a umha estratégia sociocultural para a Galiza de hoje e a hábitos comunicativos entre galegos de hoje). Parece evidente que a resposta a esta questom é, hoje em dia, negativa: para se atingirem os fins referidos, é indispensável, por assim dizer, importarmos o luso-brasileiro na Galiza, e essa importaçom cultural, para ter eficácia, deverá revelar-se, como vimos, comunicativa, no sentido de mostrar adaptaçom às idiosssincrasias dos recetores; é indispensável, por outras palavras, enxertarmos o luso-brasileiro no galego, e esse enxerto regenerador deverá revelar-se o mais compatível possível com o organismo recetor, para nom se desencadear neste umha reaçom de rejeiçom.

Ora, é inegável que, na atual comunidade sociocultural galega, umha praxe reintegracionista que, como a de padrom lusitano, desconsidera ou sacrifica genuínos traços gráfico-fónicos (bolchevique, em que ch representa /∫/), morfográficos (são representa sam e som), morfológicos (eu comi, por comim; comeram por comêrom) e lexicossemánticos (jantar ‘ceia’) do galego nom pode apresentar, de longe, tanta eficácia para atingir aqueles objetivos como um reintegacionismo que, sem renunciar a um potente efeito projetivo no seio da Lusofonia, tenha tamém em conta as legítimas particularidades da variedade galega do galego-português (isto é, o reintegracionismo de padrom galego). No entanto, a ponderaçom de méritos que acabamos de efetuar apenas terá validade se nom se optar —como tenhem feito certos setores nos últimos anos— por redefinir o reintegracionismo, longe dos objetivos tradicionais acima enunciados, conforme uns moldes em que já nom se aspira a enxertar o luso-brasileiro no galego, mas, simplesmente, a oferecer aos galegos o «português», na qualidade de língua-estrangeira-próxima, e de umha forma «politicamente asséptica», respeitosa na prática com o supremo império do castelhano na Galiza e insensível ao esmorecimento do galego castrapizado. Naturalmente, esta é umha via —derrotista, acomodatícia e, de facto, pseudorreintegracionista— pola qual a nossa AEG, por princípio e vocaçom, nunca deverá enveredar.

Última modificação emDomingo, 19 Março 2017 10:59
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