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Lusofonia, perfil e sentido

Lusofonia, perfil e sentido

Joám Lopes Facal

O espaço lusófono, como agrupação de países de expressão portuguesa, têm uma importante presença mundial como âmbito cultural do segundo romance mais falado do mundo depois do espanhol e como ator económico global, presente tanto no espaço comunitário europeu através de Portugal, como entre as grandes economias emergentes agrupadas no BRIC, através do Brasil.

Do ponto de vista económico e social, cumpre examinar o perfil socioeconómico atual da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, CPLP (1996) para tirar uma primeira impressão em termos quantitativos da sua importância global.

CPLP 2017

População, 106 habitantes

PIB nominal, 109 USD

Integração (*)

IDH

Posto

Portugal

10,3

217,6

UE

0,847

41

Angola

29,8

124,2

SADC, CEEAC

0,581

147

Brasil

209,3

2.056,0

Mercosul

0,759

79

Cabo Verde

0,5

1,8

CEDEAO

0,654

125

Guinê-Bissau

1,9

1,3

CEDEAO

0,455

177

Guinê Equatorial

12,8

10,5

CEEAC

0,591

141

Moçambique

29,7

12,3

SADC

0,437

180

São Tomê

0,2

0,4

CEEAC

0,589

143

Timor Leste

1,2

1,6

ASEAN

0,625

132

 

295,64

2.425,70

     

Espanha

46,6

1.311,00

UE

0,891

26

Galiza

2,70

69,33

UE

0,891

26

Fonte: Banco Mundial.

(*) Comunidades económicas de integração: União Europeia, SADC (Comunidade Desenvolvimento África Austral), CEEAC (Comunidade Económica Estados África Central), Mercosul, CEDEAO (C. E. E. África Ocidental), ASEAN (Associação de Nações Sudeste Asiático). Em 2015 teve lugar em Lisboa uma cimeira da ELO (Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Económico e a Cooperação) para programar a cooperação entre a CPLP e as suas Comunidades de integração.

O desmesurado peso de Brasil na CPLP — por volta de 80 % da população e do 85% em produto económico nominal — dispensa qualquer juízo sintético de conjunto. Outro apontamento pertinente é o facto de Portugal ser, a distância, não apenas a matriz da língua comum — falar em cultura comum seria claramente despropositado numa comunidade tão heterogénea — com também o país mais desenvolvido e socialmente coeso como corresponde a sua pertença á UE. É significativo apontar que, enquanto Portugal goza de um índice de desenvolvimento humano, IDH, (PNUD: 1993) próximo de 0,85, que o situa no posto 41 no ranking mundial, o Brasil mantém-se no limiar do 0,8, no posto 79 do desenvolvimento medido com este índice sintético. Aos efeitos comparativos e de interpretação, incluímos a pé de quadro os dados correspondentes a Espanha e à Galiza. Não será preciso sublinhar que a magnitude do PIB formulada em termos nominais, embora orientativa dista muito de ser um indicador preciso da potência económica de cada país; a sua tradução a termos de poder aquisitivo seria porventura mais orientativa mas à custa de introduzir a variável custo da vida, altamente volátil.

Observamos uma incongruência, a de a Guiné Equatorial ser sócio da CPLP enquanto a Galiza nem sequer atinge o título de membro nato por direito de língua e história. A razão não é outra que a dependência da Galiza da zelosa diplomacia espanhola e o facto de a Guiné nadar num oceano de petróleo e gás que justifica a sua pertença a um clube afinal não demasiado exigente em standards democráticos. À parte do plausível facto de o país equatorial ter introduzido o português como terceiro idioma oficial à par do espanhol e o francês. A cultura, como a política, nunca fica muito afastada do poder económico.

O significado e peso simbólico do termo lusofonia é assunto controverso que suscita apaixonadas adesões no segmento mais nacionalista da intelectualidade portuguesa e profunda desconfiança tingida de ressentimento pós-colonial nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), além de um certo desdém autossuficiente por parte do Brasil. As tensões cruzadas de europeísmo, africanidade e tropicalismo cultural fizeram parte da polémica intelectual em tempos recentes em Portugal e no Brasil, submetido este ao dilema de aprofundar no património cultural comum com Portugal ou instalar-se numa visão unilateralista de ator global descontraído e autónomo.

O doloroso processo de descolonização em África durou quase quinze anos, desde as primeiras escaramuças em Angola de começos de 1961 até a Revolução dos Cravos de abril de 1974 que enclausurou clamorosamente o extemporâneo Império. A ferida colonial deixou um forte estigma na sociedade portuguesa que a breve Revolução cicatrizou miraculosamente apagando a sangria de vidas e autoestima e dando passo a uma exemplar atitude de acolhimento de tantas biografias frustradas no impossível Portugal africano. A entrada afinal de Portugal na comunidade europeia (1986: ano de adesão, 2002: adoção do euro como moeda de circulação) serviu de elixir mágico para superar o trauma da excecionalidade e o isolamento, comum a Espanha e Portugal. A saudade não recobrará já mais o papel dolorido de estranhamento físico e metafísico no país das lágrimas e as aspirações desmesuradas.

Ao tempo, a lusofonia nascia como eco saudoso da titânica aventura das descobertas e a convicção de Portugal ser matriz de povos e aspirante a uni-los simbólica e culturalmente numa comunidade cooperativa de destino vinculada pelo idioma glorioso. O espaço lusófono é um campo de colaboração e confronto de uma comunidade intercontinental heterogênea e extensa que produziu em Portugal uma excelente literatura filosófica acerca do perímetro cultural do português internacional e as suas implicações práticas. Desde a raça lusitana de Teixeira de Pascoaes até o Império do Espírito Santo de Agostinho da Silva, desde a olhada crítica e céptica de Eduardo Lourenço à denúncia implacável dos disfarces do colonizador impenitente de Alfredo Margarido e daí aos contributos analíticos de Miguel Real ou Onésimo Teotónio Almeida, a tormenta de ideias sobre o imaginário português e o seu papel no mundo não parece amainar, enredado ainda numa sorte de literatura do desastre espanhol modulada com mesura portuguesa.

Mas, como esquecer a força secular duma língua que mereceu dois memoráveis elogios A minha pátria é a língua portuguesa (Fernando Pessoa, Livro do desassossego); da minha língua vê-se o mar (Vergílio Ferreira, 1991). O idioma, raiz e destino.

Não, não tudo é poesia e ensaio na vindicação do lusismo cultural como pretenso eixo fulcral da humanidade que fala português. A internet é a prova mais concluinte. Segundo a informação mais recente da Internet World Stats referida à distribuição de utentes da Rede por idioma em 2017, o português é o quinto idioma de relação no mundo com 169, 2 milhões de utentes para uma população falante estimada em 268,5 milhões, só por debaixo do onipotente inglês (1.055,3//1.462,0 milhões ) e do chinês (804,6//1.452,6), do espanhol (337,9//515,8) é do árabe (219,0//435,6). Sem esquecer outro vector de globalização eminente: a potente indústria audiovisual brasileira de amplo consumo nos países africanos.

maplus

Nada reflete mais claramente a dimensão estratégica da comunidade lusófona que o facto paradigmático da celebração em Macau, em Outubro de 2003, do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa, elegendo para tal fim uma zona administrativa especial da República Popular da China sujeita a soberania portuguesa até final de 1999 e consagrando-a como plataforma permanente de relação da República Popular com o universo lusófono.

Quanto ao ensino e difusão do português é oportuno recordar que o Instituto Camões certifica que o aprendizado de língua e cultura portuguesa convoca atualmente um coletivo de 155.000 alunos espalhados por 72 países, nalgum dos quais tem mesmo a consideração de língua obrigatória nos currículos escolares como no caso de Argentina e Uruguai. O facto de as motivações econômicas serem primordiais entre o estudantado de português põe de relevo a sua potencialidade.

E a Galiza? Estranho comportamento o nosso, titulares da matriz fundadora do galego-português e desdenhosos espetadores hoje da cultura irmã e fecundante. Reclusos numa gaiola tetra- provincial, por vocação passiva e subserviente, a Galiza decidiu auto infligir-se o castigo de irrelevância e empobrecimento linguístico mediante a surdez institucional e a indiferença social.

Poderíamos evocar agora a prometedora economia colaborativa transfronteiriça que nos une a Portugal, baseada nas atividades da confeição e o automóvel ou apontar à plena atualidade da conexão ferroviária Corunha – Porto por iniciativa de uma empresa de transporte alemã operante na Galiza, ou mesmo a cooperação universitária em matéria de inovação e tecnologia; mas talvez seja o momento de pôr fim a este breve percurso lusófilo que supera já o espaço generosamente concedido.

Galiza conta desde 1983 com um excelente veículo de comunicação como é o galego reintegrado, consubstancial com o galego secular e congruente com o português, que poderia servir de eficaz itinerário para conectar com as variantes internacionais do idioma comum. Infelizmente, a hostilidade institucional aliada à ausência de massa crítica de utentes tem-na condenado à marginalidade. Ninguém objeta, ao invés, o uso de português que não subverte hierarquias internas nem põe em questão competências de gestão cultural. No entanto, o país deixa-se arrastar pola indiferença enquanto assiste impávido à rutura da transmissão intergeracional e a perda de oportunidades num mundo en transformação.

Em 1908, afirmava Unamuno que Portugal era um povo suicida, será esta talvez uma pulsão congénita galego-portuguesa?

Fonte: http://www.igadi.org/web/analiseopinion/lusofonia-perfil-e-sentido-0

Última modificação emDomingo, 31 Março 2019 20:20
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